‘Estórias’ dos ralis, António Borges: “Passaram dois e um deles em sentido contrário”


Dois anos depois de se estrear nos ralis, e perante uma concorrência forte e experiente, o jovem António Borges arrebatava o título de Campeão Nacional, ao volante daquele que terá sido o carro mais emblemático da sua carreira: o Porsche 911. No final desse ano de 72, foi uma das grandes figuras do Rali TAP, intrometendo-se na luta entre os pilotos estrangeiros: “Para o TAP, reuniram-se vários factores que me permitiram encarar o rali com confiança. Em primeiro lugar, quando cheguei à prova, era já campeão nacional, o que me libertou para andar à vontade, sem pressões. Depois, treinei bastante e conhecia bem o percurso.

Mas o carro já acusava algum cansaço, pois vinha de uma época inteira, e o motor nunca havia sido mexido. Apenas a caixa fora reparada, uma vez que, antes da Volta a Portugal enganaram-se a montar os carretos e trocaram o carreto da quarta velocidade com o da quinta, o que me obrigava a engrenar a quinta quando queira meter a quarta e vice-versa.
No TAP, andei bem, até gripar uma biela, quando discutia o terceiro lugar com o Tony Fall, no Datsun 240Z e o Bjorn Waldegard, no Citroen SM Proto. Foi um rali sempre a andar, sem tempo para descansar, com longas ligações e controlos apertados a obrigarem-nos a andar sempre depressa, mesmo entre os troços. Lembro-me que, na assistência antes da ligação para o célebre “Cavalinho”, esqueceram-se de por gasolina.
Tive que parar para abastecer, o que me obrigou a fazer depois uma longa ligação a fundo, para não penalizar. Cheguei ao início do “Cavalinho” mesmo a tempo de partir e, com a embalagem que levava, fiz a descida “a zero”, completamente a fundo, sendo um dos poucos a consegui-lo, juntamente com alguns pilotos de fábrica”, explicou António Borges, falando sobre uma altura em que os ralis eram, acima de tudo, uma louca aventura. Mas será que os pilotos tinham consciência dos riscos que corriam? “Nem pensávamos nisso. Participar nestas provas era uma aventura, não apenas pelas horas levadas ao volante, mas também pelos sítios onde conduzíamos. Passávamos no fim do mundo!
Hoje as estradas são boas, mas, na altura, chegávamos às aldeias mais isoladas através de caminhos estreitos, com sequências de curvas e contracurvas. Os habitantes fugiam para dentro de casa quando chegávamos, julgando certamente que éramos extra terrestres! Lembro-me de passar em povoações nas zonas de Arganil ou da Cabreira, completamente isoladas do mundo. Recordo um Rali Targa em 72, disputado na zona da Cabreira. O primeiro sector anunciava 80km mas tinha, na verdade, cerca de 120, com dois controlos de passagem. Quando passámos no segundo controlo, perguntámos se já tinha passado muita gente e responderam-nos que tinham passado apenas dois e um deles em sentido contrário! No dia seguinte ainda havia gente a tentar sair da Cabreira, completamente perdida naquele labirinto.
E quando ficávamos na estrada, ninguém nos ia buscar!
Sem as formas de comunicar que existem hoje, as assistências ficavam à nossa espera e, por vezes, era difícil descobrir onde havíamos parado. Uma vez, o Raposo de Magalhães mandou um Datsun para dentro de um buraco e ficou lá toda a noite. Ele bem gritava a pedir ajuda, mas ninguém chegava perto. Só no dia seguinte conseguiram tirar o carro com uma junta de bois…
Nestas condições, era frequente ver os pilotos estrangeiros a percorrer todas estas estradas antes de cada Rali TAP. Víamos muitas vezes os seus carros de treinos parados à porta dos sítios onde se comia. Eles conheciam melhor as tascas que nós (risos)…