Há 20 anos, o ‘Nacional’ de Ralis começou com tanta neve quanto o Monte Carlo deste ano…


Há vinte anos, a Póvoa de Varzim vestiu-se de temporal para acolher o arranque do Campeonato Nacional de Ralis de 2006. O Casino da Póvoa Rali transformou-se num campo de batalha onde a natureza impôs as suas leis.

Foi um martírio para os pilotos, que viram os seus carros e a sua perícia testados ao limite por troços implacáveis. A frustração toldou o olhar do público, sedento de espetáculo, mas confrontado com a fúria dos céus. Os organizadores lutaram incansavelmente contra as adversidades, num cabo dos trabalhos que parecia não ter fim.

A neve e o gelo ditaram o encurtamento da prova, amputando mais de metade da sua quilometragem original. O que restou foi um desafio épico, uma dança arriscada entre o homem e a máquina, mas para muitos poucos, pois a grande maioria limitou-se a ‘passear’…

E no meio do caos, da lama e da incerteza, emergiu a figura de Armindo Araújo, a dominar o seu reino, levando com mestria o seu Mitsubishi ao triunfo, superando as dificuldades e sagrando-se vencedor. Um triunfo que soube a superação, a resiliência, a uma história escrita a letras garrafais na memória do automobilismo nacional.

Marcada pelas adversas condições climatéricas em que se desenrolou, a prova inaugural do campeonato de 2006 viu o seu percurso cronometrado reduzido para menos de metade, consequência da anulação de duas especiais e a neutralização de duas outras – das sete inicialmente previstas. Mais do que a chuva ou até a lama, seria a neve a deixar alguns dos troços verdadeiramente impraticáveis, nomeadamente os que trilhavam o alto da serra da Cabreira – desde a tarde de sexta-feira coberta por um imenso manto branco. Apesar da beleza do cenário, sobretudo quando observado do centro de Vieira do Minho, cedo se percebeu que este não era o fim-de-semana ideal para se disputar um rali, pontuasse ele para o Nacional ou apenas para o Regional da especialidade.

Mas tomada a decisão de dar a partida na Póvoa de Varzim, na noite de sexta-feira, a organização não mais quis atirar a “toalha ao chão”, enfrentando a partir daí um conjunto de situações que exigiram resposta rápida, firme e coerente, mesmo se em algumas situações não nos parece que tenha enveredado pelo caminho mais seguro – como quando insistiu na realização da segunda passagem pela especial de Salamonde/Agra. No global, dir-se-ia que soube sempre manter a “cabeça fria” e resistir a todas as adversidades, mesmo aquelas que aconteceram à margem da intempérie, como foi o caso das duas neutralizações atribuídas em “Guilhofrei”. De qualquer forma, o efeito “bola de neve” que se despoletou a partir da anulação da primeira especial de sábado foi inevitável, acabando a maioria dos concorrentes por andar um pouco ao “sabor do vento” durante toda a segunda etapa, sempre na incerteza do que viria a seguir.

Sem surpresa, as críticas dirigidas à organização não se fizeram esperar no final, muitas delas em torno da segurança – questão sempre pertinente e impossível de contornar. De resto, é impossível esquecer que das 51 equipas que terminaram classificadas, 41 tiveram oportunidade de cumprir apenas 17,44 de percurso cronometrado em condições ditas normais… quando à partida estavam previstos quase 114! A única parte positiva é que realmente não houve nenhum acidente grave a lamentar.

Das sete classificativas inicialmente propostas pelo Targa Clube, apenas três se realizaram em condições normais por todo o pelotão: a super-especial da Avenida do Mar, na noite de sexta-feira, e a dupla passagem pela especial de “Anissó”, precisamente a mais curta da segunda etapa, com apenas 7,82 km

cronometrados. Devido ao espesso manto de neve que cobria grande parte da serra da Cabreira, logo pela manhã, a organização viu-se forçada a anular a primeira passagem pelo troço de maior extensão, “Salamonde/Agra” (32,5 km). Apesar do esforço que ainda foi feito na recuperação de algumas das zonas mais problemáticas, a verdade é que também a segunda passagem por este troço seria anulada, não sem antes o carro “00” ficar atolado na neve, bloqueando o caminho a Armindo Araújo, Miguel Campos e Fernando Peres, os únicos a quem chegou a ser dada a partida desta quinta Prova Especial. As outras surpresas desagradáveis ficaram reservadas para a classificativa de “Guilhofrei” (15,95 km), por duas vezes neutralizada pela organização: primeiro quando Pedro Leal ficou sem transmissão no seu Fiat Stilo, bloqueando a passagem a todos os que atrás dele seguiam; e depois quando Fernando Peres abriu a direcção do seu Mitsubishi Lancer, após o toque numa pedra, também ele ficando a impedir a passagem dos restantes concorrentes.

Contas feitas, dos 113,84 km inicialmente previstos, o Casino da Póvoa Rali viu disputarem-se apenas 49,34, portanto, menos de metade do percurso cronometrado, mas o mínimo indispensável (25 %) para que a prova pontuasse para o campeonato.O irónico da situação é pensarmos que, por força de todas as situações atrás descritas, apenas Armindo Araújo e Miguel Campos realizaram esta quilometragem em situação de corrida. Por seu turno, oito pilotos cumpriram um total de 33,39 km, enquanto as restantes 41 equipas classificadas regressaram a casa apenas com 17,44 km cumpridos em condições normais. Atípico é pouco…

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