MEMÓRIA, 2001: Autódromo Internacional do Algarve está em marcha, um projeto muito válido


Há 20 anos, no AutoSport, escrevia-se sobre o Autódromo Internacional do Algarve, sete anos antes da sua inauguração. Só no ano seguinte se previa lançar a primeira pedra. Hoje, passados 20 anos, muito ficou pelo meio, mas é no mínimo interessante perceber como tudo começou.
Para quem estava renitente, bastou ir a Jerez, fazer uma pergunta, e ouvir uma resposta: “Quero alugar a pista!” e “Para que ano?…”
Aqui fica o texto, com 20 anos…

Em meados do próximo ano vai ser lançada a primeira pedra do Autódromo Internacional de Portimão. O projecto está em marcha e já tem o aval nas entidades nacionais depois das instituições internacionais o terem avaliado em termos técnicos. Na prática, os responsáveis da Parkalgar querem dotar o Algarve de uma infraestrutura de lazer, rentável e que possa, um dia, albergar competições motorizadas ao mais alto nível. E porque tudo está a ser feito, exactamente, com um nível elevado é que este tem forçosamente de ser considerado um projecto muito válido.
Projectos para construção de autódromos têm aparecido com alguma frequência mas nunca um como este que a Parkalgar apresentou aos responsáveis da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting. “Este sim, parece ser um projecto com cabeça, tronco e membros, e com muitas capacidades para andar para a frente”. A declaração do Director Geral da FPAK resume e identifica claramente os propósitos da empresa algarvia que na última semana abriu as portas do seu escritório para nos dar a conhecer em detalhe os planos de construção desta pista nos arredores de Portimão.
Como tudo começou
Tudo começou em Agosto do ano passado, quando numa reunião de administração se discutiam projectos futuros, um dos responsáveis da empresa, no caso, um engenheiro mecânico que dá pelo nome de Paulo Pinheiro e que alguns kartistas ou motards se poderão lembrar do tempo em que ele corria no Troféu Capacete Verde ou nas Supersport, resolve lançar a ideia de construir um autódromo. O responsável máximo da Bemposta, uma empresa de construção subsidiária da Parkalgar, riu-se mas lá se deixou convencer a ir “aqui ao lado”, a Jerez de La Frontera, para ver com os seus próprios olhos o que era uma pista em termos de construção e qual a sua rentabilidade. “Para tanto, dissemos que éramos clientes e que queríamos alugar a pista. Perguntaram-nos para que ano?…” Aí, Horácio Nunes trocou o sorriso pelas “contas de cabeça” e muito sério ficou quando viu o quadro de ocupação da pista para o ano de 2000 e 2001. Multiplicando esses dias pelas taxas de aluguer praticadas não foi difícil chegar à conclusão imediata, embora superficial, de que o investimento era capaz de compensar. Mas, como só isso não bastava, Paulo Pinheiro meteu pés ao caminho e foi a Itália falar com os elementos da Flamini Group que já organizaram competições de automóvel e agora se dedicam às motos.
Com base então, num já vasto leque de informações, foi elaborado um estudo económico aprofundado posteriormente apenso a toda a informação técnica que deu assim corpo ao dossier que seria apresentado às mais altas instâncias do Governo, com o apoio dos responsáveis da autarquia de Portimão que desde o primeiro momento se colocaram ao lado da Parkalgar por terem a noção perfeita do retorno que este projecto pode ter para o desenvolvimento da região, do Algarve e do País.

Investimento de 14 milhões de contos
O primeiro elemento do elenco governativo a ser contactado foi o Secretário de Estado do Turismo, Vitor Neto. Um algarvio de gema que curiosamente está bem sintonizado com o assunto graças ao conhecimento que possui de tudo o que se tem passado com o Autódromo do Estoril. E foi, justamente, por causa disso, que de imediato se colocaram algumas reticências por se considerar que a pista lisboeta era e é tida como um “poço sem fundo” para absorver dinheiro dos contribuintes. Todavia, os argumentos apresentados acabaram por convencer Vitor Neto. “A Parkalgar é uma empresa privada que quer colocar de pé um projecto rentável, logo, para dar dinheiro. Nesse sentido, vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que isso se verifique. A nossa filosofia é muito simples, o autódromo será um meio de ganhar dinheiro, que não haja dúvidas disso porque o assumimos claramente. Vamos investir cerca de 14 milhões de contos e como tal queremos recuperar essa verba tão rápido quanto possível. Como? Com uma gestão profissional através de uma perspectiva que se calhar pouca gente tem. Daí as nossas preocupações começarem desde logo na construção de todas as infraestruturas. Queremos que as pessoas que forem ao autódromo se sinta bem, confortáveis e que possam desfrutar na integra do espectáculo que lhes for oferecido.” Nesse sentido, a pista foi pensada para ser implementada através de determinadas zonas do terreno que possam, depois, servir como anfiteatros e bancadas naturais, sendo fundamental que se aviste o máximo possível do perímetro do circuito.
Mas como sublinha Paulo Pinheiro, as corridas que se fizerem no circuito são apenas um dos muitos aproveitamentos possíveis deste complexo, “pois queremos dotar este espaço de um sem número de condições que sirvam não só os apaixonados pela desporto motorizado mas que possibilitem também a quem não o seja que possa dispor de um conjunto de serviços inexistentes nesta zona do país. Em termos muito básicos, aquilo que nós pretendemos com este projecto é criar um parque de diversões que por acaso tem um autódromo no meio no qual, de vez em quando se fazem ali umas corridas a sério.” Na essência, o objectivo de rentabilização de uma grande parte dos 365 dias de um ano, passa pela oferta do espaço para “cursos de condução, apresentação de novos modelos por parte das marcas sejam elas de automóveis, sejam de motos, acções de formação, enfim, há um conjunto de acções co-laterais que podem ser dinamizadas.”
Só por isto é fácil perceber como os responsáveis da Parkalgar estão actuais em relação ao meio de negócio onde pretendem entrar, o que já é uma grande vantagem nos dias que correm…
“Hoje em dia, e falando especificamente de corridas, queremos que o Autódromo Internacional de Portimão possa ser palco de grandes festas, pois só assim faz sentido que as pessoas venham até aqui. Queremos proporcionar condições para que isso aconteça, pois só assim poderemos fidelizar a nossa clientela.”
Tal como na pista em que nada está a ser deixado ao acaso, também a nível de acessos, os responsáveis da empresa sabem que podem contar com uma rede viária muito boa. “Existiram nada menos do que 12 possibilidades de estradas para chegar ao Autódromo, contando que a principal é a Via do Infante que vai ter um nó de saída a dois quilómetros da entrada da pista. Depois, o Aeródromo Municipal de Portimão também vai ser ampliado por forma a receber pequenos aviões a jacto, isto, sem contar que temos o aeroporto de Faro a 20 minutos e que em meados do próximo ano, Portimão estará ligado à Europa por auto-estrada.” De resto, em termos de infraestruturas, o novo Hospital do Barlavento também está mais do que operacional e com capacidades para servir o autódromo em caso de necessidade.


Homologação para Fórmula 1
No plano técnico, o Autódromo Internacional de Portimão, desenhado pelos responsáveis da Parkalgar já tem a sua forma praticamente definitiva, tal como a apresentamos nesta reportagem, “se existirem alterações julgamos que são situações de pormenor muito pequenas”. Para aí chegarem, os engenheiros e arquitectos da empresa algarvia fizeram quase uma dezena de projectos os quais foram sucessivamente alterados em face das discussões que foram sendo tidas com os elementos das diversas federações.
Hoje, o desenho que está em poder dos mais altos responsáveis desportivos cumpre com todos os requisitos regulamentares exigidos para as competições de mais alto nível. “E se em termos de motos o problema das ultrapassagens não se coloca, já no caso dos automóveis a situações é diferente, mas nós tivemos cuidado em dotar o traçado de pelo menos três pontos de ultrapassagem para carros com grande apoio aerodinâmico. As simulações de computador que fizemos apontam para isso, porque antes de um ponto de travagem forte, temos uma recta à qual se acede através de curvas rápidas.”
Largura da pista, rails de protecção, escapatórias, correctores, boxes, bancadas, tudo foi pensado para que a pista possa ser homologada com o Grau 1 da FIA e o nível mais elevado da FIM para que ali possam andar, respectivamente, monolugares de Fórmula 1 e motos de Grande Prémio.
“Não sabemos o que nos reserva o futuro e se algum dia aqui se disputará uma prova de qualquer um destes campeonatos, mas como temos a noção de que sai mais caro emendar ou alterar depois de estar tudo feito, é que queremos construir a pista de raíz com todas as infraestruturas necessárias a tal. Se um dia precisarmos de as utilizar elas já lá estão. Mas este modo de estar não é novidade na nossa forma de trabalhar, por isso é apenas a continuação de algo que já fazemos há muito.”
E para que conste, neste projecto estão envolvidos nada menos do que 16 engenheiros e seis arquitectos. Nada de especial se dissermos que os responsáveis pelo autódromo puseram de pé recentemente um projecto habitacional de 440 apartamentos em 100 hectares de terreno num investimento que rondou os 15 milhões de contos. Logo, a construção do autódromo não será propriamente uma “aventura” como à partida se poderia pensar.
O lançamento da primeira pedra nos cerca de 700 mil metros quadrados que a Câmara Municipal de Portimão cedeu por tempo alargado (entre 30 a 50 anos) está agendado para um período que se deverá situar entre Março e Agosto de 2002, na perspectiva de que no Verão de 2003 o Autódromo Internacional de Portimão possa ser inaugurado.


Horácio Nunes (Administrador da Parkalgar)

“Este é um bom negócio”
Quando se concretizar o projecto do Autódromo Internacional de Portimão, os responsáveis da empresa promotora, a Parkalgar podem estar certos de que um dos seus objectivos será conseguido: “Portugal precisa de ser mais conhecido além-fronteiras e o Algarve mais acarinhado.”
A construção da pista será, inquestionavelmente, um marco que contribuirá para o desenvolvimento da região e acima de tudo um aproveitamento das infraestruturas já existentes noutros meses que não só os de Verão. Mas como a Parkalgar não é uma empresa pública ou uma instituição de solidariedade social, há que ter em conta a sua rentabilização. “Pelas contas que temos feito, o investimento não será muito, muito rentável, mas pensamos que com a qualidade de gestão que julgamos ter e com a abordagem que estamos a planificar em termos de actividades paralelas de nível lúdico e temático, o autódromo deverá ser rentável. Tudo isso junto irá certamente gerar receitas que ajudarão a complementar aquelas que se irão extrair do aluguer da pista. De qualquer forma, para um empresário, este não é, realmente ‘o’ negócio. É um bom negócio que se faz com paixão e algum voluntariado.”