Kartódromo Ayrton Senna no Estoril: a homenagem que ficou no papel


Há 20 Anos, o Estoril imaginava um futuro sobre rodas pequenas, num Kartódromo que prometia mudar a face do Autódromo do Estoril. Não aconteceu…

Há 20 anos, o Autódromo do Estoril parecia prestes a ganhar uma nova vida com a promessa de um kartódromo moderno, integrado no miolo do circuito e batizado em homenagem a Ayrton Senna. Hoje sabemos que o projeto nunca saiu do papel, mas revisitar o texto original ajuda a perceber o entusiasmo e as expectativas que então se criaram em torno do que poderia ter sido chamado Kartódromo Ayrton Senna.

Um projeto pensado para relançar o Estoril

Na altura, o artigo sublinhava que o karting estava “de volta” ao Estoril, décadas depois de o traçado ter recebido o Campeonato do Mundo nos anos 70. A ideia era clara: construir um kartódromo permanente, apontado como um dos melhores recintos nacionais, com ambição de acolher ainda em 2006 a Taça de Portugal. A leitura, hoje, tem quase um tom de crónica de futuro interrompido.

A lógica de fundo era a da rentabilização do Autódromo do Estoril. Como explicava então Luís Pinto de Freitas, presidente da FPAK, uma infraestrutura daquela dimensão precisava de diversificar fontes de receita, e a ausência de um kartódromo na área de Lisboa e linha do Estoril parecia abrir uma oportunidade evidente.

O investimento numa pista de karting encaixava, por isso, no plano estratégico delineado pelos acionistas para tornar a sociedade mais viável e ativa ao longo do ano.

Um traçado ambicioso no coração da parabólica

O traçado estava desenhado para nascer no interior da parabólica, com dez variantes possíveis, três delas utilizando parte dessa mesma parabólica. A versão mais longa, com 1.258 metros, destinava‑se às grandes competições: provas internacionais e principais eventos nacionais sob tutela direta da federação, como o Campeonato Nacional de Karting e a Taça de Portugal.

O desenho (como se vê na imagem) ficara a cargo de Jorge Pereira, técnico superior da Câmara Municipal de Cascais e consultor habitual do Autódromo em obras do género. O texto original sublinhava o cuidado colocado na conceção do circuito, incluindo a intenção de ouvir pilotos de karting atuais quando o traçado estivesse marcado no terreno, para validar “in loco” as soluções pensadas. Com largura constante de oito metros, o kartódromo introduziria ainda uma novidade para a realidade nacional: luzes de limitação de pista integradas nos corretores, um detalhe que, visto hoje, mostra o grau de sofisticação pretendido na altura.

Infraestruturas de apoio e vocação para lazer

Para lá da pista, o projeto previa um edifício de apoio com cerca de 1.120 m², destinado a acolher oficina, sala de cronometragem e serviços complementares. A pista teria sistema de iluminação noturna, permitindo utilização em horário alargado, e acesso independente ao circuito principal, complementado por uma passagem superior pedonal logo após a curva VIP.

O artigo lembrava também a dimensão comercial e de lazer do empreendimento: estava planeada a aquisição inicial de uma frota de 50 karts de aluguer, mais cinco unidades para pilotos mais jovens. O desenho do traçado permitia ainda a utilização simultânea de duas versões diferentes, maximizando a capacidade operacional. O investimento global estimava‑se em cerca de dois milhões de euros, um valor significativo à escala do karting nacional, pensado para um equipamento que prometia combinar competição, formação e karting de lazer.

A homenagem adiada a Ayrton Senna

Um dos elementos mais marcantes do texto original era a intenção de batizar a nova infraestrutura como Kartódromo Ayrton Senna. Era apresentado como um “projeto de intenções”, mas descrito quase como inevitável, pela ligação histórica do piloto brasileiro ao Estoril. A justificação era dupla e carregada de simbolismo.

Por um lado, o autódromo foi o palco do primeiro triunfo de Senna na Fórmula 1, no GP de Portugal de 1985, sob chuva intensa, onde conquistou igualmente a sua primeira pole position. Por outro, seis anos antes, o jovem Ayrton já tinha passado pelo Estoril ao volante de um kart, terminando em segundo lugar na prova decisiva do Campeonato do Mundo de Karting – aquela que, como recordava o texto, foi provavelmente a vez em que esteve mais perto de se sagrar campeão mundial da especialidade.

O artigo encerrava com uma imagem que muitos adeptos ainda guardam: Senna curvando apenas com uma mão, enquanto a outra tapava o carburador, numa manobra tão eficaz quanto icónica. Era essa memória, associada à carreira que se seguiu, que sustentava a homenagem anunciada no nome do futuro kartódromo.

Um olhar de há 20 anos que ajuda a entender o que não aconteceu

Vinte anos depois, sabemos que o kartódromo nunca foi construído, que a placa com o nome de Ayrton Senna não chegou a ser instalada – foi-o na na Praça Ayrton Senna da Silva, a ‘alameda’ frente à bancada principal do circuito, mas a oportunidade de criar um centro de karting de referência dentro do Estoril perdeu-se pelo caminho.

Mas reler o texto original permite perceber o contexto: a necessidade de rentabilizar o autódromo, a vontade de atualizar infraestruturas, o cuidado no traçado, a ligação emocional a Senna e ao Mundial de Karting dos anos 70.

Vinte anos passaram, e talvez não falte muito para haver novidades no Circuito do Estoril, pois nos bastidores trabalha-se. Não há muito tempo, a Câmara Municipal de Cascais apresentou à Parpública uma proposta para assumir a gestão do Autódromo do Estoril, mas o processo pode ter estagnado. Dentro de algum tempo voltaremos ao assunto…

Para já, ficamos apenas com o olhar do nosso jornalista de então, e a memória histórica, que nos ajuda hoje a compreender não só o entusiasmo da época, mas também a dimensão do que ficou por concretizar. É precisamente por isso que este é um tema interessante de recordar duas décadas depois: porque nos lembra um plano ambicioso, ancorado numa história riquíssima: será que um dia o Kartódromo Ayrton Senna ainda irá nascer no coração do Circuito do Estoril?

Ativar notificações? Sim Não, obrigado