Borracha queimada no ecrã: quando Hollywood finalmente acertou nas curvas


Todos os amantes do automobilismo continuam à espera do filme ideal: imagens deslumbrantes em 4K, uma narrativa que exprima toda a essência do desporto motorizado e personagens que personifiquem o fascínio das pistas.

Durante muito tempo, Hollywood derrapou nestas curvas, produzindo obras como “Driven” ou algumas sequelas de “Velocidade Furiosa”, onde o automóvel acabou por ser apenas adereço. Mas nos últimos tempos o género evoluiu radicalmente e hoje dispomos de títulos que ocupam o topo tanto em realização como em autenticidade.

Clássicos incontornáveis como “Le Mans” (1971) e “Grand Prix” (1966) permanecem como referência absoluta. No entanto, realizadores como Ron Howard, Michael Mann e Joseph Kosinski provaram que é possível criar cinema de qualidade sobre automobilismo, superando o velho cliché de filmes de ação centrados em perseguições.

A segunda década do século XXI: quando a velocidade ganhou narrativa

Em 1990, “Days of Thunder” trouxe Tom Cruise para o mundo NASCAR. Embora não tenha a profundidade de “Rush”, tornou-se um clássico pop, com corridas coreografadas, rivalidades intensas e uma abordagem única à realidade dos circuitos americanos, que continua a ser redescoberta em revisões e artigos.

Mas foi “Rush – No Limite da Emoção” (2013) que redefiniu o padrão: Ron Howard, Chris Hemsworth e Daniel Brühl recriam a rivalidade James Hunt – Niki Lauda no auge da F1, com intensidade emocional e rigor pouco comum no género; um dos mais aclamados filmes de automobilismo da história.

Por outro lado, o documentário “Senna – O Brasileiro, O Herói, O Campeão” (2010), dirigido por Asif Kapadia, tornou-se obra fundamental. Com montagem exclusivamente de imagens de arquivo, narra a carreira de Ayrton Senna mostrando a sua luta dentro e fora das pistas, a rivalidade com Prost e as batalhas políticas. Recebeu vários prémios internacionais e tornou-se referência para todos os apaixonados pela Fórmula 1.

Uma nova geração de filmes: drama e precisão histórica

Destaca-se “Ford vs Ferrari” (2019), realizado por James Mangold, que narra a lendária disputa entre Ford e Ferrari nas 24h de Le Mans em 1966. Christian Bale e Matt Damon protagonizam um filme onde cada segundo de corrida serve a narrativa emocional e técnica, equilibrando ação de pista e relações humanas.

Em “Ferrari” (2023), Michael Mann foca o verão de 1957 e a preparação para a Mille Miglia, com Adam Driver como Enzo Ferrari. Aqui, o drama pessoal e corporativo cruza-se com a tensão das corridas, mostrando como o automobilismo pode ser palco para dilemas profundos.

Documentários de topo: uma visão para lá do volante

“Audi Truth in 24” e “Truth in 24 II” oferecem acesso inédito aos bastidores da equipa Audi nas 24 Horas de Le Mans, mostrando a estratégia, preparação e a pressão de vencer na clássica francesa. Documentários ricos em informação e emoção que ilustram a realidade moderna das equipas de topo.

Outros exemplos incluem “McLaren: O Homem por trás do volante” (2017), excelente para compreender a génese da equipa e a personalidade visionária de Bruce McLaren, e “Williams” (2017), que traça a história apaixonante de Frank Williams, embora com uma faceta de obstinação brutal, menos conhecida do público geral — uma demonstração de coragem, sacrifício e resiliência fora do comum.

Também merece destaque “Fangio – O Rei das Pistas” (2020), disponível na Netflix, que revisita os feitos do pentacampeão argentino através de depoimentos das maiores figuras da actualidade e imagens inéditas dos anos 1950.

A série “Drive to Survive”, lançada pela Netflix em 2019, revolucionou a forma como percebemos a F1: acesso aos bastidores, dramatização de rivalidades e politização do desporto, embora por vezes com excesso de drama, é indiscutível que trouxe novos públicos ao automobilismo.

Da ficção à realidade técnica

Em 2025, estreia “F1”, realizado por Joseph Kosinski e protagonizado por Brad Pitt, centrado na narrativa de um piloto que regressa à F1 para ajudar uma equipa azarada. Com recurso a câmaras instaladas em carros reais, o filme investe em captar a sensação autêntica da competição em 4K e Dolby Atmos, redefinindo a experiência cinematográfica do automobilismo.

Filmes e propostas nacionais e europeias

“Veloz Como o Vento” (2016), produção italiana de Matteo Rovere, mergulha nas corridas GT, explorando o drama pessoal associado ao desporto; “Drive” (2011), com Ryan Gosling, reimagina o automóvel como personagem central na tela, misturando ação estética e suspense.

Oportunidade perdida

Nota também para o Race for Glory: Audi vs. Lancia, (em Portugal, “Corrida para a Glória”), estreado em 2024 e baseado na rivalidade histórica do Campeonato do Mundo de Ralis de 1983, recebeu críticas mistas, com várias falhas graves apontadas tanto por especialistas como por fãs de ralis.​

Uma das críticas mais recorrentes centra-se no desequilíbrio narrativo: o filme concentra-se quase exclusivamente em Cesare Fiorio e na equipa Lancia, negligenciando completamente a perspetiva da Audi. O filme foi severamente criticado pelas liberdades criativas excessivas e erros factuais.

No IMDb, o filme obteve uma classificação de 5,8/10, refletindo uma receção morna tanto do público como da crítica especializada. Muitos recomendam, em alternativa, o documentário de Jeremy Clarkson no Grand Tour sobre o mesmo tema, considerando-o mais emocionante e fiel à realidade.​

Uma maturidade que chega à velocidade máxima

Vinte anos depois, Hollywood e o mundo abriram a pista ao automobilismo como espaço de grandes narrativas: rivalidades intensas, limites ultrapassados, tecnologia que desafia as leis da física e drama humano.

O desporto automóvel tornou-se metáfora de vida e de superação — não mais mero cenário. Realizadores e argumentistas abraçam a complexidade dos protagonistas e das equipas, e garantem que, enquanto houver histórias de coragem, obsessão e competição para contar, haverá sempre uma câmara pronta a captar mais borracha queimada no ecrã.

E agora, com a clareza do 4K e a imersão do Dolby Atmos, a narrativa finalmente acompanha a velocidade.

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