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MEMÓRIA: Stirling Moss, Já não se fazem homens assim

Numa das suas mais recentes passagens por Portugal, Stirling Moss falou sobre (quase) tudo: F1, Barack Obama, ‘gagdets’ e aquela vitória inglória na Boavista, em 1958

Ao ouvir a lucidez de Stirling Moss é difícil acreditar que este cidadão britânico nasceu na década de 20 do século passado. O facto de ter recebido a mais alta condecoração de Sua Majestade foi o primeiro indício de estarmos perante alguém especial. Aos 88 anos, Sir Stirling fala dos dispositivos automáticos que projetou para a sua casa com a mesma clarividência com que recorda os tempos em que se bateu com Fangio. Pelo meio, fala da sua admiração por Barack Obama. Numa época em que estamos habituados a pilotos de F1 de discurso formatado e acríticos, Stirling Moss mostra-nos que o desporto automóvel também produziu homens interessantes. Não é por acaso que hoje continua a ser requisitado nos dois lados do Atlântico, além de ser visto como uma espécie de embaixador pela Mercedes, que lançou uma edição do SLR com o seu nome.

O antes e depois na F1
Falar com Sir Stirling é uma oportunidade única para perceber, de facto, o que era a F1 nos anos 50 e 60. “Um dos problemas era que grande parte das peças eram de série e não tinham sido feitas para carros de competição. Portanto, a hipótese de algo se partir a qualquer momento era grande. Participei em 529 corridas e terminei 437. Quando abandonava era quase sempre por avarias mecânicas. Um piloto entrava no carro e, por exemplo, não tinha a certeza que os cintos de segurança iam funcionar. Dou-lhe um exemplo: com todo o ‘downforce’ que os F1 têm hoje em dia, basta ao piloto levantar o pé para que a desaceleração produza 40 por cento do poder de travagem que eu tinha na altura. O piloto nem sequer trava e consegue quase metade da força de travagem daquela época! Um outro exemplo: o Ayrton Senna não morreu por estar num carro perigoso. Morreu porque uma peça da suspensão lhe entrou pela viseira do capacete – uma hipótese em mil, se não mais.”

Desportivismo: uma espécie ameaçada

Moss venceu os dois primeiros Grandes Prémios de Fórmula 1 disputados em Portugal, em 1958 e 59. O primeiro foi na Boavista, palco do célebre episódio em que ilibou o seu principal adversário, Mike Hawthorn, evitando a sua desclassificação. “O Mike tinha saído de pista para uma escapatória e não conseguia pôr o carro a trabalhar. Foi ajudado por algumas pessoas e virou o carro em sentido contrário para conseguir arrancar. No final foi desclassificado, mas eu disse que ele tinha feito a manobra fora de pista, não havia razão para o desclassificarem.” Moss ganhou a corrida, Hawthorn foi segundo e no final da época ganhou o campeonato por… um ponto. Será que Moss concebe semelhante ato de ‘fair-play’ nos dias de hoje? “Claro que não. Isto agora não é um desporto; é um negócio.” O britânico defende que “a forma como o Lewis (Hamilton) correu na última prova de 2008 desvirtua o sentido de um campeão. O Lewis é muito bom mas naquele GP do Brasil de 2008 foi o Felipe Massa que correu como um campeão.”

A corrida mais louca
Se hoje tiver que recordar a corrida mais difícil da sua carreira, Moss não vai buscar um dos seus 66 Grandes Prémios na Fórmula 1: “A única corrida onde senti medo foi a Mille Miglia de 1955. Era uma prova completamente louca. Rodávamos a fundo por toda a Itália em estradas normais que não estavam completamente fechadas. A última parte era entre Cremona e Brescia. São 134km. Fiz isso em 30m54s…”.

Apaixonado por ‘gadgets’
Depois de abandonar competição, Stirling Moss lançou-se num negócio de compra e venda de propriedades que ainda detém com a família. Paralelamente, projetou a própria casa em que incluiu uma série de automatismos que eram novidade na altura. Desde um sistema que prepara o banho a uma temperatura pré-determinada, até a um tampo de sanita aquecido, Moss foi explorando o interesse por ‘gagdets’ numa altura em que a domótica ainda era um conceito incipiente. Atualmente explora a sua imagem na perfeição e tem um website (stirlingmoss.com) que mistura a história nas corridas com a sua própria promoção comercial. A atual conjuntura mundial também não lhe passa ao lado. Diz que “Barack Obama foi uma lufada de ar fresco”. E se o próprio Stirling Moss se candidatasse à presidência da FIA? “Seria horrível! (risos) Acho ridículas algumas das medidas da FIA, mas tenho mais jeito para criticar do que para tomar decisões”, brincou.

O piloto que nunca foi Campeão

Quatro anos consecutivos em que foi vice-campeão e os três terceiros lugares fazem de Stirling Moss o melhor piloto de Fórmula 1… que nunca chegou a Campeão do Mundo. Entre 1951 e 1961, Moss participou em 66 Grandes Prémios e venceu 16, dois dos quais em Portugal. Passou por equipas como Mercedes-Benz, Maserati, Vanwall e nos Cooper e Lotus privados da Rob Walker Racing Team. Em três dos seus quatro vice-campeonatos foi batido por Juan Manuel Fangio, mas aponta o inglês Tony Brooks como “o piloto mais completo da minha era”.

Ricardo Araújo