Thierry Boutsen: O ‘Don Tranquilo’ da F1


Não, não se trata de um cossaco, muito menos de um personagem do livro escrito por Mikhail Cholokov com o mesmo título. Trata-se de Thierry Boutsen, talvez o mais tranquilo dos pilotos que nas últimas décadas passou pela F1. Com relativo sucesso mas, especialmente, com muita, muita calma. E velocidade…

Thierry Boutsen foi daqueles pilotos que quase passou despercebido. Muto rápido, teve uma carreira de dez anos na F1 em equipas como a Benetton ou a Williams, assinando apenas três trunfos – todos eles em condições diferentes, desde pista húmida ao calor húngaro e passando pela chuva torrencial australiana e ao volante de um carro, o FW12, “que não era o melhor.” Isso diz bem das suas qualidades e da sua capacidade de trabalho.

Do sonho de menino à grande realidade
Tudo começou logo aos três anos – foi quando disse ao seu surpreendido pai que queria ser piloto de automóveis! O pai nem queria acreditar, mas o certo é que a primeira vez que o pequeno Thierry conduziu um carro foi com oito anos e, quatro mais tarde tentou entrar na escola de pilotos gerida por André Pilette, que tinha corrido na F1. No entanto, nessa altura, na Bélgica, apenas depois de se ter carta de condução é que podia conduzir carros de corrida e Boutsen teve que esperar até fazer 18 anos. Pelo meio, foi fazendo o gosto ao… dedo, participando em provas de motos, sem nunca quebrar nenhum osso, o que foi desde logo bom sinal.

Vencedor do “Volant V”, em 1977, subiu à Fórmula Ford 1600 no ano seguinte, sagrando-se campeão belga e, depois, à F3. Aqui, em 1980, foi “vice” de Michele Alboreto. Subiu para a F2 em 1981 com a equipa March oficial e, nesse ano, conquistou novo “vice” agora de Geoff Lees. Ganhou duas corridas, entre elas a que teve lugar no “Inferno Verde” do Nürburgring, e subiu ao pódio por mais três vezes. No ano seguinte, permaneceu na F2, agora com o Team Spirit terminando em 3º lugar no Campeonato, a seis pontos de Johnny Cecotto e a sete de Corrado Fabi e vencendo mais duas corridas – e de novo no Nürburgring.
Piloto em ascensão e muito bem cotado pela sua coragem, Thierry Boutsen mostrou a sua versatilidade ao correr em Le Mans (ver Caixa) e ganhar a primeira corrida da História do Grupo C, os 1000 Kms. de Monza em 1983, com um Porsche 856 partilhado com bob Wollek. Nesse ano, correu também no ETCC e, claro, estreou-se na F1.

Um lugar por 500 mil dólares
A F1 é o sonho de qualquer piloto, mesmo os menos dotados. E, com Thierry Boutsen – que até nem era nenhum “coxo” – isso não foi diferente. Ser piloto da Spirit na F2 significou, também, estar envolvido no projeto de F1 que a equipa tinha em mente para 1983. Mas, subitamente, a escolha recaiu em Stefan Johansson o seu colega de equipa na F2 – e Boutsen acabou por agradecer a descortesia. Já tinha feito testes, aliás promissores, com a McLaren e a Brabham mas, se quis entrar para a F1, teve que desembolsar um cheque de 500 mil dólares, por um lugar na Arrows.
Boutsen – que não teve nenhum contato para fazer F1 nos primeiros meses de 1983 e por isso decidiu correr em carros de “Sport” – conta que, quando estava em Monza, depois de ter ganho a corrida, recebeu uma chamada telefónica de Jackie Oliver, um dos donos da Arrows, que estava à procura de um piloto para o lugar de Chico Serra. A conversa foi breve e ficou acordado um teste em Silverstone. Mas uma das premissas do acordo era que o belga tinha que levar também patrocínios – por isso, tinha que fazer uma boa corrida de estreia que, curiosamente calhou ser em Spa, para impressionar os seus putativos apoiantes. E, apesar de ter abandonado com um problema de suspensão logo à quarta volta, conseguiu a assinatura que precisava. Até ao final da empoada (onde não pontuou) e nos três anos seguintes ficou na Arrows, onde bateu com alguma frequência o seu bem mais experiente colega de equipa Marc Surer. Em 1985, Surer foi substituído por Gerhard Berger, que era mais rápido – mas também foi batido por Boutsen com regularidade. Porém, no final dessa temporada mais um balde de água fria: quem foi escolhido para a bem mais competitiva Benetton foi Berger e não Boutsen!

Este apenas em 1986 lhe seguiu as pisadas, mas quem encontrou na Beneton foi Teo Fabi – além de um B187 pouco fiável que lhe permitiu apenas terminar metade dos GP. Mesmo assim, regressou aos pontos, subindo pela primeira vez ao pódio, na Austrália. A época de 1988, ainda com a Benetton, foi bastante mais positiva: nove vezes nos pontos, ais cinco terceiros lugares e apenas dois abandonos. Um esforço coroado com a sua melhor classificação num Campeonato do Mundo 4º, com 27 pontos.
Especialista à chuva – “porque na Bélgica chove o dia todo, todo o ano!” – Boutsen tinha outra qualidade: antes de chegar à F1 estudou engenharia mecânica e uma das suas “manias” era ficar a ajudar os mecânicos e a tentar perceber aquilo que os engenheiros queriam fazer. Isso foi praticado com sucesso na Williams, onde os seus conhecimentos técnicos ajudaram a equipa a desenvolver a nova suspensão ativa – mas, depois de duas temporadas em que ganhou três corridas e bateu com autoridade, em pilotagem pura, o seu colega de equipa Riccardo Patrese, Boutsen recebeu novo pontapé no rabo: no final de 1990, saiu da Williams pela porta pequena e com bastas razões de queixa, pois Sir Fank optou por “escolher” Nigel Mansell, que tinha sido exigido pelo seu novo patrocinador, a Labatt, que se juntou à Canon.
A partir daqui, a sua carreira na F1 entrou em fase descendente. Na Ligier, também em fase semelhante, teve que enfrentar Érik Comas, piloto que – segundo ele – está nos antípodas de Senna no que respeito diz às relações humanas. Inimigos assumidos, sempre que ambos se encontravam em pista, o francês (que era mais lento cerca de 1,5s, mas nunca o quis admitir…) decidia resolver os “assuntos pendentes” da pior forma, provocando o acidente. Farto disso, Boutsen trocou a Ligier pela nova Jordan, na que foi a última temporada da sua passagem pela F1.
E que não chegou a concluir: com 1,80 m, quase não cabia no “cockpit” do 193, que tinha sido feito a pensar em Rubens Barrichello, que media 1,65m. E, quando percebeu que Eddie Jordan não tinha dinheiro para cumprir com o prometido no Mónaco, “alargar” o carro por forma a ele caber lá dentro, Boutsen deixou a equipa. A sua última corrida de F1 foi no mesmo lugar da primeira: Spa-Francorchamps. Mas, ao contrário de dez anos antes, agora foi um “terror”: as suas mãos batiam nas partes laterais do “cockpit”, onde mal conseguia mexer os joelhos, arriscando bater em todo o lado, no difícil traçado das Ardenas.
Piloto pouco agressivo e vistoso, embora rápido, tem uma das mais baixas percentagens de desistências por acidentes ou colisões: 5,8%, referentes a apenas sete acidentes na F1, até 1990. Nem Alain Prost, célebre pela sua pilotagem cerebral e meticulosamente fria e calculista!
Afastado das pistas desde 1999, quando sofreu o seu grave acidente nas 24 Horas de Le Mans, Boutsen vive no Mônaco. Casado com Daniela, administra cm ela a Boutsen Aviation, uma das principais empresas privadas de aviões para executivos na Europa e que tem mais de duas centenas de aviões de luxo. Sempre que pode, acompanha as corridas de F1.

24 Horas de LeMans: Tragédia e glória
Thierry Boutsen, como piloto versátil que foi, participou nas 24 Horas de LeMans por dez vezes, entre 1981 e 1999. Desistiu em seis edições e terminou quatro. Até aqui, nada de anormal: afinal, foram algumas dezenas os pilotos que correram na clássica francesa duas mãos cheias de vezes. O diferente da passagem de Boutsen por LeMans é que, de uma maneira absolutamente absurda, oscilou entre a tragédia e a glória.
Data 13 de Junho de 1981. O dia da sua estreia nas 24 Horas de LeMans. Boutsen tinha 23 anos – um mês exato depois, iria festejar 24. Mas isso fi porque a sorte esteve com ele. Ao volante do rápido WM P81/Peugeot, seguia na reta das Hunaudières (então ainda sem as chicanes), a uma velocidade de cerca de 350 km/h. Estava-se no minuto 66 da prova – que tinha começado uma hora mais cedo, por causa das eleições para o Parlamento francês. A cerca de 400 metros da bossa antes de Mulsanne (que hoje também já não existe), quebrou-se uma peça da suspensão. Sem controlo, o carro embateu nos “rails”, perdendo logo aí toda a secção traseira, enquanto o resto do carro “explodia” em milhares de pedaços, numa área superior a 150 metros quadrados. Boutsen saiu dos destroços ileso, mas a mesma sorte não tiveram três comissários que estavam no local. Um deles, Thierry Mabillat, atingido por uma peça que saltou do “rail” em pleno peito, morreu de imediato e outros dois ficaram seriamente feridos. Horas mais tarde, na mesma reta, mas noutra seção, seria o piloto francês Jean-Louis Lafosse a perder a vida num acidente semelhante.
A partir de 1993, participou regularmente na prova. Como piloto oficial da Peugeot, subiu pela primeira vez ao pódio em 1993. Mas foi com a Porsche que carimbou a sua única vitória, em 1996, nos GT1, depois de mais dois pódios, ambos relativos a dois 2º lugar à classe. Depois do triunfo, nova fase de três abandonos consecutivos: em 1997, 1998 e, em 1999, aquele que determinou o encerramento prematuro da sua carreira. Pelo segundo ano seguido piloto oficial da Toyota, nesse ano apenas para Le Mans foi a única corrida que fez em 1999) Boutsen estava ao volante do carro nº 2 quando, na zona de aproximação à curva Dunlop, sob a famosa ponte amarela, a seguir à reta da meta e numa altura em que seguia a alta velocidade.
A tentar passar um Porsche atrasado, este desviou-se da sua trajetória natural e obrigou-o a perder o controlo do carro, entrando em derrapagem na gravilha, que percorreu velozmente, antes de se esmagar contra as barreiras de proteção. Eram cerca de duas horas da manhã e o piloto ficou encarcerado nos destroços. Em estado grave foi levado para o hospital onde lhe foram diagnosticadas fraturas na espinha. A recuperação foi lenta e, ao perceber que as suas capacidades estavam diminuídas, o belga decidiu colocar um ponto final na sua carrreira. Tinha 42 anos.

PALMARÉS EM LE MANS
1981 – c./SergeSaulnier/Michel Pignard (WM P81/Peugeot 2.7 V6 Turbo) – abandono (acidente – v.15)
1983 – c./Henri Pescarolo (Rondeau M492/Ford Cosworth DFL 4.0 V8) – abandono (v.174)
1986 – c./Didier Theys/Alain Ferté (Porsche 956 2.6 Turbo Flat-6) – abandono(v.89)
1993 – c./Yannick Dalmas/Teo Fabi (Peugeot 905 Evo 1B 3.5 V10) – 2º
1994 –c./Hans-Joachim Stuck/Danny Sullivan (Dauer-Porsche 962 Le Mans/Porsche 3.0 Turbo Flat-6) – 3º (2º GT1)
1995 – c./Hans-Joachim Stuck/Christophe Bouchut (Kremer K8Spyder/Porsche 3.0 Turbo Flat-6) – 6º (2º WSC)
1996 – c./Hans-Joachim Stuck/Bob Wollek (Porsche 911 GT1 3.2 Turbo Flat-6), 2º (1º GT1)
1997 – c./Hans-Joachim Stuck/Bob Wollek (Porsche 911 GT1 3.2 Turbo Flat-6) – Abandono (v.238)
1998 – c./Ralf Kelleners/Geoff Lees (Toyota GT-One 3.6 Turbo V8) – Abandono (v.330)
1999 – c./Ralf Kelleners/Allan McNish (Toyota GT-One 3.6 Turbo V8) – Abandono (acidente, v.173)

Senna, o meu bom amigo
Uma coisa que poucas pessoas sabem é que Thierry Boutsen teve em Ayrton Senna um dos seus melhores amigos. Aliás, Boutsen considera a sua vitória na Hungria, em 1990 – a última das três da sua carreia – uma das melhores recordações da sua carreira. Nesse Grande Prémio, sem estar com o melhor carro do plantel, conseguiu bater o seu amigo – e curiosamente, também seu ídolo. Autor da “pole position”, o belga liderou durante toda a corrida, tendo por adversários Alessandro Nannini e Senna. Estes envolveram-se numa colisão, que foi fatal ao italiano, mas Senna conseguiu sobreviver e, até ao final da corrida, moveu uma tenaz perseguição ao seu amigo terminando em 2º lugar a apenas 0,288s.
Boutsen privou várias vezes com Senna, que considerava como “um piloto superior melhor do que qualquer um.” Passaram juntos muitos dias, entre corridas e, por algumas vezes, foi convidado na sua ilha de Angra dos Reis, para onde viajava em companhia da esposa e dos filhos, gozando aí umas merecidas férias.
Curiosamente, ambos estiveram prestes a assinar com a Ferrari, em 1988 mas “a coisa não funcionou”: Senna acabou por não avançar e, sem o apoio do seu amigo, Boutsen não teve “coragem” para seguir em frente até porque o seu nome tinha o elevado “patrocínio” do nome do brasileiro. Ou melhor: um não iria sem o outro e o outro (neste caso, Boutsen) não tinha hipóteses de, sozinho, ir para a Ferrari, porque a Ferrari não o queria.
Boutsen já tinha deixado a F1 – na verdade no ano anterior – quando Senna morreu, em Imola. Esta “tragédia”, a que assistiu pela televisão, nunca mais a esqueceu, até porque tinha conhecimento de que essa deveria ser a última temporada de Ayrton Senna, que queria aposentar-se para se estabelecer no Brasil e ajudar as pessoas mais carenciadas.

THIERRY BOUTSEN
Nome: Thierry Marc Boutsen
Nascimento: Bruxelles, 13 de Julho de 1957 (56 anos)
Estreia na competição: 1975 (Fórmula V)
Outros resultados: 1º “Volant V” (1977); Campeão belga FF 1600, (1978, 15 vitórias em 18 corridas); vice-Campeão da Europa F3 (1980, 3 vitórias); vice-Campeão da Europa F2 (1981, 2 vitórias); 3º Campeonato da Europa de F2 (1982, 3 vitórias); Campeão norte-americano de GT1 (1998)
F1: 22/05/1983 – 29/08/1993
GP F1 disputados: 164 (163 largadas)
1º GP F1: GP Bélgica 1983
Último GP F1: GP Bélgica 1993
Vitórias: 3
1ª vitória F1: GP Canadá 1989
Última vitória F1: GP Hungria 1990
“Pole positions”: 1
Voltas mais rápidas: 1
Pódios: 15
Pontos: 132
Marcas: Arrows (1983-86); Benetton (1987-88); Williams (1989-90); Ligier (1991-92); Jordan (1993)

PALMARÉS NA F1
1983 – Arrows: 10 GP. Não pontuou
1984 – Arrows: 16 GP; 1 NQ. 15º CM, 5 pontos
1985 – Arrows: 16 GP. 11º CM, 11 pontos
1986 – Arrows: 16 GP. Não pontuou
1987 – Benetton: 16 GP. 8º CM, 16 pontos
1988 – Benetton: 16 GP; 1 DQ. 4º CM, 27 pontos
1989 – Williams: 16 GP, 2 vitórias (Canadá e Austrália). 5º CM, 37 pontos
1990 – Williams: 16 GP, 1 vitória (Hungria). 6º CM, 34 pontos
1991 – Ligier: 16 GP. Não pontuou
1992 – Ligier: 16 GP. 14º CM, 2 pontos
1993 – Jordan: 10 GP. Não pontuou