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Histórias das corridas: Sortes, azares, destino ou maldição…


Todos os desportos têm a sua quota-parte de episódios inexplicáveis. O cérebro tenta justificar que não passam apenas de coincidências, mas o arrepio que provocam não tem muito de racional. Existem muitas justificações para um piloto não obter resultados. Mas há marés de azar e maremotos de azar! O rei da má sorte na Fórmula 1 é, incontestavelmente, Chris Amon. Um dos mais novos pilotos a conduzir um Fórmula 1, o neo-zelandês estreou-se ao volante de um Lola Climax com 19 anos, em 1963 e, até 1976, esteve em 13 equipas diferentes, participando em 96 GP. Muito rápido e seguro, conseguiu cinco poles, partindo da primeira fila 19 vezes. Liderou várias corridas mas, apesar do seu indiscutível talento – que demonstrou noutro tipo de provas – nunca venceu um Grande Prémio.
Esteve 784 quilómetros na primeira posição mas, sempre que a bandeira de xadrez se aproximava, alguma coisa tinha que acontecer para o impedir de ganhar – quase sempre sem culpa dele. Manfred von Brauchitsch, piloto alemão da equipa Mercedes, depois de um início de carreira muito promissor, especializou-se em perder corridas na última volta – a mais famosa delas no Grande Prémio da Alemanha em 1935, contra Nuvolari – de tal forma que ficou conhecido por pechvogel (pássaro azarado).
Mas às vezes, quando a maré de sorte muda, ainda é mais estranho. Giancarlo Baghetti foi o único piloto a vencer no seu GP de estreia. Com uma carreira iniciada nos carros de turismo e GT, Giancarlo foi escolhido para correr com os Ferrari F1 em 1961. Venceu as duas primeiras provas extra-campeonato: Siracusa e Nápoles e, no Grande Prémio de França, contra todas as expectativas, no seu primeiro GP a sério, também venceu, tarefa algo facilitada pela desistência dos seus principais rivais. Mas, depois deste feito inédito, começou uma mala pata que perseguiria o piloto italiano até ao fim da sua vida. A gota de água foi na Maratona Londres-Sidney, em 1968, quando alguém assaltou o seu Lancia, roubando-lhe o roadbook, os documentos e todo o seu dinheiro, obrigando-o a desistir. Baghetti decidiu deixar de lutar contra a má sorte e abandonou as corridas.
Nas vésperas da edição de 1957 das Mil Milhas, os membros da equipa Ferrari – Peter Collins, Wolfgang von Trips, Olivier Gendebien e Alfonso de Portago – e alguns amigos estavam a jantar, quando repararam que havia treze pessoas à mesa. Lembraram-se de separar as mesas, para enganar a Sorte. Mas, no dia seguinte, o espanhol de Portago e o seu co-equipier, Ed Nelson, morriam num despiste, que vitimou ainda dez espectadores…
A morte de Richard Seaman – o inglês que fez parte da equipa Mercedes-Benz nas temporadas de 1937 a 1939 – em Spa também reuniu algumas coincidências sombrias, todas relacionadas com o número 13 e os seus múltiplos. Ele morreu no ano de 39, tinha 26 anos e conduzia o carro número 26, numa corrida com 13 participantes. A paragem para reabastecimento demorou 26 segundos. O acidente deu-se perto da marca dos 13 quilómetros do circuito, no final da 13ª volta em que liderava, quando faltavam apenas mais 13 para o fim da prova. Depois do acidente, a grelha do seu Mercedes tinha apenas 13 barras direitas.
A vida de Camille Jenatzy, teve também um desfecho infeliz: o primeiro homem a superar os 100 à hora, na “La Jamais Contente”, em 1899, obteve muitos sucessos ao volante de automóveis Mercedes nos primeiros anos do século. A sua ligação aos automóveis daquela marca era tão forte que o “Diabo Vermelho” – como era conhecido, devido ao cabelo e barba ruivos – afirmou convictamente que iria morrer ao volante de um deles. Acabou por acertar, mas não certamente como pensava. Em 1913, quando passeava na sua quinta ao volante de um Mercedes, um caçador confundiu-o com um veado e deu-lhe um tiro…
O Conde Zborowski ficou conhecido nos anos 20 pelos monstruosos automóveis que fez construir para correr nos mais conhecidos circuitos europeus. Em 1924, no GP de Monza, o automóvel que pilotava derrapou e bateu numa árvore e Zborowski teve morte instantânea. Descobriu-se depois que, nessa prova, usava os mesmos botões de punho responsáveis pela morte do seu pai, Eliot, quando a sua manga ficou presa no acelerador de mão do Mercedes que conduzia na rampa de La Tourbie, em 1903.
Mas o Prémio do Arrepio vai direitinho para a história seguinte. Em 1932 realizou-se uma prova no circuito de Avus. Alguns dias antes, Eric Hanussen, previu a vitória de von Brauchitsch e a morte do piloto checo Lobkowicz. Ambas as previsões se verificaram, com um pormenor tétrico: no momento em que se deu o acidente de Lobkowicz, o relógio da sua boxe parou…

Por Adelino Dinis