Futuro da F1: “Sobreviver sem dependência!” by Flavio Briatore


Flavio Briatore é uma personagem incontornável da Fórmula 1. Um homem de negócios que chegou aos Grandes Prémios sem paixão pelo automobilismo, mas com uma visão comercial que acabou por contagiar muitos dos seus rivais. O italiano sempre foi diferente dos outros patrões de equipas e o seu estilo direto e agressivo sempre fez as delícias dos jornalistas.


Numa altura em que a Fórmula 1 está envolvida em discussões relativamente ao seu futuro, continuando a ser muito difícil travar o escalar dos orçamentos, leia o que Briatore já avisava há precisamente 10 anos, em entrevista ao AutoSport.


Da mesma maneira como critica abertamente e de forma extremamente agressiva quem escreve coisas que não lhe agradam, Briatore também explica, sem papas na língua, qual o caminho a seguir, do seu ponto de vista, para os diversos problemas que a F1 vai ter de resolver. Aliados e amigos, ou adversários e inimigos, todos podem ser criticados pelo italiano, que aplica uma regra de ouro a todas as suas actividades: «Exijo aos outros aquilo que exijo a mim próprio: que dêem o máximo no que estão a fazer. E se isso não for suficiente para ganharmos, é porque não somos suficientemente bons; nunca porque não tentámos tudo aquilo que sabíamos!»


Por isso o italiano tem ideias muito próprias em relação ao momento actual da Fórmula 1, começando por lançar críticas directas à FIA e às equipas: «Para mim um bom gestor é alguém que se antecipa aos problemas, toma medidas preventivas e quando chegam os momentos difíceis já está preparado para isso e gere a crise com base no trabalho feito antes desta chegar. O que se fez na F1 foi entrar em pânico quando chegaram os sinais de crise, tomando-se uma série de medidas que já deviam ter sido tomadas há muito tempo se toda a gente estivesse atenta e menos ocupada a olhar para o seu próprio umbigo!»


Mil pessoas para dois carros E Briatore prossegue, «porque é que agora aceitaram este corte nos testes, na utilização dos túneis de vento e há três ou quatro anos, quando nós quisemos parar o crescimento galopante de custos, não nos ligaram nenhuma. Quando ganhámos o Mundial de 2005 com o Fernando Alonso fartei-me de dizer que tínhamos o sexto maior orçamento da F1, mas não o disse para me gabar: estava a demonstrar que se podia gerir melhor os recursos do que a maior parte das equipas fazia. Para quê ter mil pessoas a trabalhar para alinharmos com apenas dois carros nos Grandes Prémios? Temos de ser racionais, gerir muito melhor os nossos recursos e perdermos a mania de que é preciso gastar dinheiro estupidamente para se ganhar. Se o dinheiro ganhasse corridas, há equipas que teriam ganhos cinco mundiais seguidos e até hoje não ganharam nem um Grande Prémio!»


«Patrocínios têm de ser lucro!»

Se a redução de custos é umdos cavalos de batalha de Briatore, que agora elogia a FOTA, «porque finalmente toda a gente percebeu que teriam de ser as equipas o motor da mudança, deixaram de olhar para interesses particulares e têm decidido pelo que é melhor para todos», o italiano também visa o seu amigo e parceiro Ecclestone no que toca à distribuição das receitas provenientes das televisões e outros acordos comerciais: «Sem equipas não existe Fórmula 1. Por isso temos de receber uma fatia importante dos lucros, para não dependermos dos patrocinadores.»


Indo mais além, o geómetra de Cuneo relembra que, «quando esta equipa era a Benetton o dinheiro dos patrocinadores pagava tudo e ainda nos dava lucro. A fábrica de Enstone foi construída sem que a Benetton lá metesse um centavo, pois a equipa dava lucro com os prémios que recebia e os patrocínios que angariava. E esse tem de ser o caminho: se damos espectáculo temos de ser pagos por isso e não deveríamos gastar mais do que o que recebemos como fatia dos lucros da Fórmula 1. Só os organizadores e patrocinadores dos Grandes Prémios nos pagam, para além das cadeias de televisão, mas temos muitas áreas por explorar, de marketing, “merchandising”, internet, tanta coisa.




Não podem ser os espectadores a pagar 400 euros por um bilhete quando ganham 1500 euros por mês! Temos muitas áreas por explorar, para aumentarmos os lucros e, evidentemente, a fatia que posteriormente caberá às equipas.» Para Briatore essa é a solução para contornar as crises económicas: «Temos de ser auto-suficientes e os patrocinadores têm de ser o nosso lucro. Por alguns anos não vamos poder contar com as grandes multinacionais como patrocinadores e vamos ter de voltar a tratar com empresas mais pequenas, que não tinham dinheiro para estar na F1. Com menos de cinco milhões de euros não metias um autocolante num Fórmula 1, não era? Pois isso acabou e vamos reabrir as portas a um mercado enorme, de empresas de média dimensão, que perdemos nos últimos dez anos com o aumento disparatado dos custos!»




Esta a receita de Briatore para os tempos de crise. Se Ecclestone, Mosley e a FOTA a vão seguir, só o tempo o dirá, mas o italiano tem argumentos de peso e a capacidade de os fazer vingar, como se tem visto nos últimos 20 anos.