Entrevista a Ni Amorim, Presidente da FPAK “TEMOS QUE TER MENOS PROVAS, MAS COM MELHOR QUALIDADE”

Por a 12 Fevereiro 2018 10:54

Ni Amorim foi eleito como novo Presidente da FPAK em junho passado, e agora, cerca de sete meses depois, fazemos um primeiro balanço do que já foi feito, e o que nos reserva o futuro…

Sete meses ainda não é muito para que se possa fazer uma radiografia detalhada do trabalho até aqui levado a cabo pela nova direção da FPAK, mas depois de meter mãos à obra e ter colocado a época de 2018 em velocidade de cruzeiro, era importante esta conversa com o novo Presidente da FPAK, Ni Amorim, eleito um junho passado. Sete meses de muito trabalho, mas que, naturalmente, ainda não deram para colocar de pé todas as ideias que consigo trouxe.

Ainda assim, é tempo de avaliar o atual ‘Estado da Nação’ do nosso desporto automóvel, esclarecer alguns dos pontos em que, de forma recorrente, a família do desporto automóvel mais se insurge, marcando desta forma um ponto de partida para memória futura.

Nesta conversa, fez-se o balanço possível, falou-se muito de karting e dos projetos de captação de jovens pilotos, da dificuldade que existe hoje em dia para manter uma carreira nos fórmulas, no estrangeiro, bem como do tão ansiado regresso das marcas ao desporto automóvel português. Naquele que poderá ser um importante documento para o desporto automóvel nacional, ficámos a saber que o IPAM, Instituto Português de Administração de Marketing, está a realizar um estudo para desenvolver ideias novas relativas à marca ‘automobilismo’.

Mas não só, pois ficámos ainda a saber que o Governo português tem na sua posse um projeto do AIA, para um estudo de viabilidade económico-financeira para a possível vinda da F1 a Portugal, e ainda o que é preciso para se reativar o Circuito da Boavista. Por fim e não menos importante, uma ênfase muito forte na segurança nos desportos motorizados e a cada vez maior exigência a esse nível.
Uma conversa sem reservas, num momento em que o desporto automóvel nacional dá sinais de alguma revitalização…

Que balanço faz até aqui de cerca de sete meses de FPAK?
É um balanço positivo. Os primeiros sete meses foram mais para reestruturar, para estudar dossiers, foram sete meses difíceis porque tínhamos que fechar os regulamentos e os calendários, o que nos ocupou os meses de novembro e dezembro na sua totalidade. Foram meses de muita carga, muito intensos, mas eu acho que valeu a pena. Aprofundámos as nossas relações com o estado, o que é absolutamente fundamental, com a Secretaria de Estado do Desporto, através do IPDJ. Demos um passo, que eu penso que seja significativo, no que respeita às matrículas dos carros clássicos, porque o decreto l ei está pronto, embora nós não possamos fazer avançar a máquina do estado, porque ela é burocrática. Mas está pronto, mostraram-nos o decreto, está para despacho, para assinatura, e espero que venha o mais rapidamente possível. É um assunto que a FPAK anda a tratar há cerca de 10 anos, e gostava imenso que isto ficasse resolvido.
Lançámos, no fundo, nestes sete meses, as bases do que irá ser o automobilismo em 2018. Focámo-nos muito no karting, que era uma das nossas bandeiras, digamos assim, do nosso programa eleitoral, e nessa área, do karting, demos passos significativos. Vamos apoiar, através da captação de novos pilotos, para que possam ser talentos do futuro no desporto automóvel. Vamos também apostar no campo da iniciação, e na possibilidade de os pilotos de karting que ganhem nas categorias de maior idade – 16 anos – sejam avaliados, e, no ano seguinte, a FPAK irá financiar-lhes uma época no Troféu KIA Picanto, o que é também uma forma de incentivar o karting. E temos trabalhado, quer no Campeonato Nacional, quer no Troféu Rotax, no sentido de chegarmos a um entendimento para que possamos remar na mesma direção, para que o karting seja cada vez mais pujante. Acredito que 2018 seja um ano muito importante.

O Nuno Couceiro disse em entrevista recente ao AutoSport que estava muito apreensivo com o que se está a passar no karting em Portugal, dizendo que temos uma ‘escola primária’, na sua opinião, muito má? Concorda? O que pensa a FPAK poder fazer a curto/médio prazo?
Sinto que o karting passou por uma fase muito mais difícil que aquela em que está agora. Acho que o karting, há cinco, seis anos atrás, bateu no fundo. Estou convencido que com as medidas que estamos a tomar na área da captação – miúdos com seis, sete anos, que queremos trazer para o karting, para a iniciação – com o trabalho que estamos a fazer de promoção e divulgação, e com os prémios que estamos a atribuir, que são muito aliciantes, que vamos dinamizar o karting. Para além de que vamos continuar a fazer a transmissão em direto da Taça de Portugal, e vamos também melhorar a comunicação e a divulgação do karting em Portugal.

Que tipo de ações estão a fazer para captar as crianças para o Karting?
Estamos a apoiar uma iniciativa, a Kart Kid Race School, um projeto feito em parceria com a FPAK, que o financia. Os miúdos vão passar a ter acesso a karts a um preço simbólico, tudo incluído, chave na mão, para, com 200 ou 300 euros, poderem fazer provas. Se não fosse subsidiado era impossível. Estamos a falar de karts novos, motores novos. Portanto, isto é bom para o karting, como é também uma ação pedagógica. É importante para as crianças este convívio, para se começarem a formar no desporto, aprenderem a conviver em equipa e aprenderem o que é um patrocinador, como defendê-lo, e o que é a comunicação social. Penso que tem todo um bom componente. Isto é uma das coisas que estamos a fazer no karting.

Temos grandes pilotos hoje em dia na velocidade internacional, que deram sequência ao que por exemplo o Ni Amorim fez no estrangeiro. Mas olhando agora, talvez só o Henrique Chaves esteja na calha. Atrás dele, assim de repente, não se vê mais ninguém que possa dar sequência a uma renovação. Presumo que
isso o preocupe?
Estamos atualmente bastante bem representados no estrangeiro, e temos que dar continuidade a isso. E tem que ser através do karting. O karting é que pode vir a ser o grande impulsionador e a produzir grandes talentos para substituir esta geração…

E o passo seguinte? Quanto tiverem que sair do karting, há alguma coisa que possa fazer a esse nível?
É muito difícil. Um piloto que faça karting e que a seguir queira fazer carreira, tem que ir para o estrangeiro e fazer fórmulas. Nós aqui em Portugal não temos fórmulas em que eles se possam enquadrar. O piloto que não tenha a possibilidade e o budget para fazer provas no estrangeiro, tem uma forma de continuar a seguir ao karting, quando tiver 16 anos, através do Troféu KIA Picanto, ou mesmo do TCR. Pela primeira vez em muito tempo temos um troféu ‘low cost’ em que as pessoas se possam iniciar, vindas do karting ou não. Um carro de 1000 cc com 140 cv, uma marca por trás e tudo bem organizado são boas notícias para o desporto. Agora o piloto que vai para o KIA Picanto não é o piloto que quer ir para a Fórmula 1. O que quer ir para a F1 tem que fazer o que fizeram os outros. Tem que ir fazer fórmulas. Agora o ciclo económico dos pilotos que vão para o estrangeiro é completamente diferente, porque hoje em dia não há os mesmos apoios que havia. É muito mais difícil, e não é só em Portugal, é transversal a toda a Europa. A federação não tem vocação, nem pode financiar carreiras de pilotos no estrangeiro. Há uma federação que noutros tempos fez um trabalho brilhante, a francesa, num projeto que era pago pela ELF, donde saíram grandes pilotos. A ELF patrocinava, alguns até foram para a F1, outros para as mais diversas categorias do desporto automóvel. Singraram neste desporto. Nós não temos essa possibilidade, há que olhar para a nossa realidade e a federação não pode fazer muito. O que podemos é criar-lhes as melhores
condições no karting, para ver se depois conseguem ir lá para fora.

Há alguma possibilidade de criar uma competição de fórmulas barata em Portugal?
Já se fizeram muitos estudos e não houve nenhum promotor interessado em trazer fórmulas para Portugal. O exemplo da nossa vizinha Espanha também não é famoso, com a Fórmula 4, e eu continuo a pensar que a melhor forma de um piloto singrar no estrangeiro é ir lá para fora e fazer as fórmulas internacionais, mas para isso é preciso budget, como já referi. O problema do budget, a federação não vai poder resolver. Vai poder é fazer melhor divulgação, criar melhores condições para que se atraia mais pessoas para o karting e ver se daí surgem talentos.

Há a sensação que o desporto automóvel nacional está a readquirir vitalidade. Surgiram três novos construtores – KIA, Peugeot, Hyundai – envolvidos oficialmente. Está otimista?
É uma excelente notícia, os melhores anos que o desporto automóvel português viveu foram sempre quando as marcas estiveram associadas, portanto fizemos uma travessia no deserto sem as marcas presentes e estou muito otimista que este ano possamos ter uma dinamização, quer na velocidade, quer nos ralis, com a chegada da KIA, Hyundai e Peugeot. A Peugeot é uma aposta Ibérica muito interessante e importante porque isso pode dar origem a mais. Correndo bem, tenho previsto com o Presidente da Federação espanhola irmos à FIA no mês de março, ou abril, propor criar uma zona Ibérica entre Portugal, Espanha e Andorra, no sentido de podermos fazer séries entre estes três países, sem estarem sujeitas às taxas da FIA. Isso baixava os custos, e com isso podíamos fazer campeonatos na zona Ibérica com custos mais baixos, porque atualmente a regulamentação não permite que um campeonato saia do
seu país mais do que uma vez. É um pouco ridículo fazer um campeonato Ibérico em que se for português vai uma vez a Espanha, e vice-versa. E que se lhe chame Ibérico. Ibérico era 50-50, é uma coisa que temos de trabalhar, a exemplo do que se faz na Europa do norte e no Benelux .
Temos que fazer aqui uma parceria ibérica. Temos que fazer ver à FIA o que de bom isso pode fazer pelo automobilismo destes dois países.

Esta Peugeot Rally Cup Ibérica tem tudo para correr bem…
Está ‘metida’ a Peugeot Portugal, Espanha e França, através da Peugeot Sport. Eu estou convencido que com os prémios que existem de participação que vamos ter um conjunto de carros interessante, a acrescentar aos nossos, e vamos animar três corridas dos nossos campeonatos de ralis. O objetivo seria ter mais de 20 carros, era muito bom…

Acha que podem vir outras marcas a ‘reboque’?
Eu acho que sim, o facto de já estarem três é importantíssimo, o que a KIA quer fazer vem ao encontro dos objetivos da FPAK, por isso temos uma carência que vai ser colmatada, e vamos criar condições para virem mais. Isso seria maravilhoso…
Se conseguirmos ter as marcas que temos, mais adeptos, melhores oficias de prova. Outro dos objetivos é ter mais oficiais de prova porque as taxas são tão baixas que a FPAK não tem verbas para os poder enviar. Isso vai acabar. Provas oficiais têm que ser observadas, é também para isso que a federação existe. Não é só dar a chancela. Se é federada, há um conjunto de requisitos que têm de ser cumpridos. E alguém tem que observar. Aí temos que mexer nas taxas para podermos mandar oficiais de prova a mais provas. Isto também é um objetivo importante.
Outro dos nossos objetivos passa por combater as provas piratas. Há muitas. Eu reuni nestes últimos seis meses sete ou oito vezes para tratar dos problemas na federação e um dos problemas são justamente as provas piratas. Está a ser tratado com a Administração Interna. Temos na lei forma de poder atuar e vamos atuar, vamos pedir à ASAE que provas que não sejam federadas e de que tenhamos conhecimento, e que lhes chamem, como chamam, concentrações turísticas, ou piqueniques, e que no fundo são provas encapotadas, vamos pedir intervenção para impedir que tenham autorização…

Que objetivos para o futuro a curto, médio e longo prazo na FPAK?
A formação e a informatização da FPAK são duas pedras basilares desta federação, e do nosso desporto. Na área da formação, o que queremos continuar a fazer, porque acho que estamos atrasados face a alguns países, é termos oficiais de prova de qualidade, quadros regulares, e para isso têm que ser bem formados.
Temos neste momento na FPAK três elementos que estão a receber permanentemente formação em seminários da FIA, em que a FPAK tem investido, para essas pessoas estarem por dentro das melhores práticas, para que depois se possam fazer seminários internos e formar os nossos convenientemente. Essa e uma grande aposta, a formação e a renovação dos nossos oficiais de prova. Temos que atrair gente nova para estas funções. A nossa ideia é haver mais profissionalização a médio e longo prazo entre os nossos oficias de prova, e criar condições a nível financeiro para que em 2019 se possa remunerar de acordo com determinados critérios, os nossos oficias de prova. Esse é um grande objetivo na área da formação.
No que respeita à parte informática, o nosso parque informático está obsoleto, temos um plano de investimento e de expansão para esta área. Já começaram a dar os primeiros resultados, estão aí à vista, as inscrições online. E na parte da modernização do nosso sistema informático, talvez gostasse de destacar que para além das inscrições online vamos passar a ter o registo digital dos passaportes técnicos, que é uma coisa muito importante, porque isso vem-nos permitir ter o registo das presenças, concorrentes, pilotos, navegadores, carros que estão a participar nas provas, e diria que, ainda na parte informática, gostaríamos que até maio, junho deste ano, os nossos delegados técnicos pudessem estar ligados em rede com a FPAK. Portanto, a ideia é deixar de haver comunicações escritas, acho que vamos poder ganhar muito com isso.
Em termos de grandes objetivos é haver um aumento do número de praticantes, é acarinhar as marcas que entraram, e se possível alargar esse leque.

 

Disse no seu discurso da Gala da FPAK, em Aveiro, que assegurou novos patrocinadores que vos vão permitir, em 2018, dar maior visibilidade, em termos de comunicação e de divulgação, às competições do calendário da FPAK. Quer revelar mais?
Nós conseguimos novos patrocinadores que nos vão permitir, sem ter que aumentar o preço das licenças aos pilotos, ter mais dinheiro para a formação e para a divulgação. Esses patrocinadores vão ser anunciados ainda em fevereiro e já estão acordados com a FPAK. É um trabalho que era preciso fazer, trazer novos patrocinadores para o desporto automóvel.
E vamos tentar mais. As épocas estão a começar e esta fase foi muito difícil. 90% dos regulamentos saíram ainda no ano anterior. As pessoas dizem que é tarde, mas esquecem-se de ver o que está ao lado. Em Espanha, a 15 de janeiro ainda não se sabia qual era o calendário do campeonato de ralis.

Há sempre alguma contestação a esse nível…
Em Portugal não se tolera, em Espanha, não dizem nada. É habitual para eles. Nesse aspeto conseguimos por ainda no ano anterior, 90% da regulamentação. Falta a regularidade, que é mais complexa, há muitas provas, mas sou um homem de diálogo, otimista e assim como chegámos a acordo com todas as outras modalidades não tenho dúvidas que na regularidade também vamos chegar a acordo. Dá mais trabalho é preciso ter mais reuniões. Nós este ano criámos comissões trabalho que acho que foram importantes, deram fortes contributos para que pudéssemos fazer as provas das mais diversas modalidades, com a maioria das pessoas de acordo, o que foi muito importante e uma inovação. Tinha muita esperança que isso resultasse e resultou.
Queremos também trabalhar com todos nas comissões de trabalho e para as Comissões FIA internacionais fomos buscar pessoas que estavam na lista minha opositora. Portanto estamos a tentar trazer para o nosso projeto as pessoas pela sua competência, e não porque votaram em A ou porque votaram em B. E para surpresa de muita gente temos pessoas a trabalhar connosco que estava na outra lista. Um dos objetivos, é unir a maioria de associados em torno do mesmo projeto. Faz sentido unirmos-nos em torno do mesmo projeto. Faz parte das minhas responsabilidades unir as pessoas, esse também é um grande objetivo, todos os dias devagarinho, estamos a conseguir..

Sabemos também que se está a trabalhar para melhorar a marca ‘automobilismo’. Como se faz isso?
Fizemos uma parceria com o IPAM, Instituto Português de Administração de Marketing, num trabalho que ficará concluído até ao mês de junho. Já tivemos varias reuniões, eles são da opinião que, ao contrário do futebol, que já está completamente explorado, a marca ‘automobilismo’ é um diamante em bruto, tem um enorme potencial e pode ser explorado. Eles acham que a seguir ao futebol, que é um fenómeno à parte, entendem que o automobilismo é a segunda disciplina mais popular em Portugal, e portanto puseram um conjunto de alunos e professores a debater este tema internamente, para ver de que forma nós devemos comunicar. O mundo da comunicação está a viver uma perfeita revolução, todos os dias há novidades, e nós temos que dar os tiros certos e apontar as baterias para comunicarmos bem com o nosso público. Este é um estudo desinteressado, não é remunerado, o próprio IPAM tem interesse em que os seus alunos façam este estudo, debatam e tirem as suas conclusões. Isto pode-nos ser muito útil para o futuro.

Para lá de discutirem internamente, vão também ao terreno tentar perceber como tudo funciona ou ter alguma sensibilidade de como tudo se passa?
O que está estipulado é fazer um trabalho teórico, uma espécie de radiografia, e para isso já lhes foram facultados os elementos solicitados. A segunda fase passa por irem ao terreno ver como as provas são organizadas, ver como os espetadores seguem as provas, ver os horários em que as provas se realizam, ver se são esses os melhores horários, tentar perceber tudo o que se possa melhorar no que à sua área diz respeito. E vão dar o seu contributo. Hoje há muitas formas de comunicar que nós próprios, de gerações mais antigas, não utilizamos, mas os mais novos sim. Os recursos nunca são excessivos e portanto temos que os gerir bem, e eu penso que este estudo nos vai ajudar para o futuro, pois é uma coisa de médio longo prazo. Acho que este estudo pode trazer um relevante contributo ao nosso desporto. Nunca foi feito…

No seu programa de candidatura, referia querer criar condições, em termos de dinamização, para o aumento do número de inscritos nas provas. O que é que a FPAK fez ou vai fazer para que isto suceda?
A atualização da regulamentação é importantíssima e vai ser aperfeiçoada e melhorada ao longo dos próximos anos. Eu não sou nada adepto de que, para haver mais adeptos, tem que haver mais provas. Temos provas a mais, algumas delas mal organizadas, que não acrescentam nada ao automobilismo. A federação, se ao invés de ter 270 provas, tivesse 200, tinha o mesmo resultado financeiro ao fim do ano, porque há muitas provas que dão prejuízo.
Portanto, nós temos que caminhar para ter menos provas, mas com melhor qualidade, e para ter mais inscritos, algo que é melhor para os clubes, para o espetáculo e para toda a gente. E a forma de captar mais adeptos é tornar a modalidade ainda mais popular. Mais atraente.

Como tem corrido o trabalho com a Madeira e Açores?
Em relação à Madeira, conseguimos enquadrar a maioria das propostas de pilotos, navegadores e clubes, quer dos Ralis quer da Montanha. Vamos agora trabalhar nas Regularidades. Em relação aos Açores, desde início de dezembro que os regulamentos e calendários estão de acordo com o pretendido…

Estamos bem servidos de provas internacionais, doutros campeonatos, mas há algum tipo de conversas, para, pelo menos, podermos ter testes de F1 em Portugal? Eu sei que há um projeto que o AIA entregou ao governo para ser avaliado, para se fazer um estudo de viabilidade económico-financeira no sentido de nos candidatarmos a termos um Grande Prémio de Portugal de F1, no Algarve. É um projeto ambicioso, neste momento o que posso dizer é que a F1 está a dar prioridade aos países que se candidatam com circuitos citadinos. É também verdade que com esta nova empresa, a Liberty Media, os preços para os países se poderem candidatar baixaram significativamente, quando comparado com os tempos do Bernie Ecclestone. Isso é uma notícia boa, embora continue a ser muito caro, e sem o apoio do estado continua a ser impossível trazer para Portugal a Fórmula 1. Neste momento, digamos assim, eu acho que é ser demasiado otimista querer ter o Grande Prémio em Portugal, embora também ache que temos um autódromo que é dos melhores da Europa. E depois não é só o circuito, também ligações, aeroportos, clima, hospitalidade, gastronomia. Há um conjunto de circunstâncias que me levam a pensar que é uma pena não termos cá a F1.
Mas por aquilo que sei, não tenho notícias em relação às respostas do estado quando às solicitações do AIA.

Antes das eleições, o anterior presidente disse que iria discutir com a Câmara Municipal do Porto a reativação do Circuito da Boavista. Houve conversações entre o executivo camarário e esta nova direção da FPAK?
Agarrei nesse assunto mas não fui em campanha à Câmara do Porto porque entendi que não devia. No entanto, já falei numa conversa muito franca e aberta com o Presidente da C.M. do Porto, Rui Moreira, que me explicou que não tem rigorosamente nada contra as corridas, o que tem é contra o seu custo.
Ele tem um ‘budget’ da Câmara que pode alocar às corridas e o remanescente, se alguém o garantir, ele volta a erguer o Circuito da Boavista.
Fiquei surpreendido pelo facto do Rui Moreira saber bastante de automóveis, e saber bastante das corridas. Gosta, e está bem mais por dentro do que imaginava. Foi bastante franco, é uma questão de orçamento. Não tem nada contra, e isso prova-se pois pela segunda vez vai fazer o Rali de Portugal. Noutros desportos, tem a Motonáutica, e o Rali de Portugal é um investimento considerável, são umas centenas de milhares de euros e ele disse-me que, se tivermos dentro do budget da Câmara algum projeto que possamos propor para se fazer no Queimódromo, estudaria a viabilidade. Portanto não é contra, bem antes pelo contrário.

A propósito do Porto, chegou a falar-se de mudanças da FPAK…
A Câmara Municipal do Porto equaciona ceder-nos umas instalações no centro histórico, por um preço simbólico, para onde nos iremos mudar dentro de poucos meses, cedeu-nos um local digno, onde vamos ter condições para fazer a tal descentralização que tanto falei na campanha eleitoral, de alguns serviços que passarão para o Porto, nomeadamente a parte da coordenação desportiva. E a sede continuará em Lisboa.
Já que estamos a falar de instalações, esse é um objetivo de curto prazo, seguir o mesmo caminho em Lisboa, e para isso já há contactos com autarquias, de Lisboa e arredores, para ver se arranjamos também um contrato semelhante, para colocar a federação numas instalações mais modernas, mais ágeis e acessíveis. Se não conseguirmos, faremos obras de remodelação nas atuais instalações, ainda durante o ano de 2018.

Regra geral, o que pensa do estado das competições em Portugal. Há alguns casos mais urgentes que precisem de intervenção mais rápida?
O CPR tem vindo a crescer, e onde eu acho que precisamos de mais inscritos é no campeonato de Portugal de Velocidade, nomeadamente no TCR, onde eu gostava de ver mais carros e mais pilotos inscritos. No caso da velocidade há pilotos que estavam a correr e vão para o estrangeiro, esperamos que haja outros que venham colmatar a falha dos que vão, mas que vão por bons motivos. Nós gostávamos ter 12 ou 14 carros na grelha. As outras modalidades têm vindo a crescer, por exemplo, o Off Road está bem, está muito melhor que há três ou quatro anos; no Ralicross temos uma espetacular prova em Portugal, e o acordo está feito por mais quatro anos, portanto, as modalidades que eu penso que precisam de mais atenção por parte da federação são as mais ‘perigosas’, refiro-me, nomeadamente, às Regularidades onde se vê de tudo, e a federação não pode fazer de conta que nada se passa, em provas que
consideramos que uma tragédia pode vir a acontecer a qualquer momento.

Falou em adaptar as prescrições gerais de automobilismo e karting à realidade portuguesa…
É nisso que estamos a trabalhar. Temos que arranjar uma forma de os antigos regionais, atuais campeonatos de ralis Norte, Centro e Sul, terem uma adequação à nossa realidade. Não podem ser excessivamente caros, nem baratos, porque depois não há qualidade por parte dos carros que participam, e isso não dá interesse ao público. Temos que arranjar um equilíbrio e por isso há que intervir nesse setor. Ainda que também tenhamos boas notícias: ao concretizar isso para os Campeonatos Norte, Centro e Sul e algumas promessas de alguns troféus que se estão a inscrever na FPAK, dá-me ideia que vai haver um aumento do número de inscritos nessas categorias. Os ralis Norte, Centro e Sul são muito importantes porque arrastam muita gente, são provas apoiadas pelos municípios, são um trampolim para que os pilotos possam olhar para o futuro, para o passo seguinte, que é o CPR. Algumas provas são comuns, e portanto acho que é mais nessa categoria que temos de adequar melhor os regulamentos, nesses três casos mais específicos.

Falou no seu discurso em Promoção do desporto automóvel no feminino em Portugal? O que pretendem fazer?
Eu gostei de ver. Houve muitas Senhoras a receber prémios na Gala da FPAK, mais do que as pessoas possam imaginar. Vamos fazer uma ação com duas corridas de karting, um programa lançado pela FIA, coordenado pela Michele Mouton, e Portugal é um dos países escolhidos para esta ação, para chamar a atenção do desporto junto das Senhoras. Vamos fazer duas corridas em locais a designar, uma em maio, na semana do Rali de Portugal, e dois meses depois outra prova, em dois circuitos a designar. Isto é comparticipado pela UE à FIA e Portugal foi um dos países escolhidos. Já estamos a preparar isto há mais
de dois meses com o nosso staff da FPAK, para que tenhamos sucesso e para ver se continuamos a receber mais eventos destes da FIA.

Falemos de segurança nos desportos motorizados. A exigência é cada vez maior, o que pretendem fazer?
A FPAK tem vindo a sensibilizar os clubes para esse facto. Todos os meses a FPAK recebe recomendações da FIA nesse sentido.
A FIA manda informação para a ASN (Autoridade Desportiva Nacional) que tem cada vez mais de dedicar atenção à segurança das provas porque temos que diminuir o número de acidentes e o número de vítimas que ocorrem nas provas. E nós, como associados da FIA, temos que seguir essas diretrizes e temos sensibilizado as pessoas, os clubes, porque a segurança é o mais importante. Eu acho que nos últimos dois anos deu-se um passo importante em termos de segurança. Eu vejo que nas provas dos campeonatos principais o público está mais bem colocado, há maior sensibilização, os clubes fazem uma campanha
uma semana antes, há um conjunto de medidas para que os clubes já estão sensibilizados a fim de as divulgarem junto das populações por onde passam as provas. Isso tem sido importante.
Depois estamos a dar importância a uma coisa que estava muito parada. Termos uma verdadeira Comissão Médica, que foi empossada há três semanas, com 12 médicos, cujo presidente é o Dr. Augusto Roxo, uma pessoa experiente nos Ralis e na Fórmula 1, com um grande currículo nesta área. Nas provas de estrada temos o INEM, as ambulâncias e os bombeiros prontos a intervir, mas é preciso ter formação específica: como devem atuar; como devem retirar uma pessoa do carro; como se deve lidar com o sistema HANS. Não basta serem ‘só’ médicos, porque este desporto tem as suas especificidades, que têm de ser respeitadas. Empossámos uma Comissão para também nos ajudar a formar os elementos, que são muitos, distribuídos pelos troços nas provas de estrada.

Há alguma forma de ter ainda mais e melhor atenção nas provas de estrada?
É mais pela sensibilização. A Polícia e a GNR, como sabem que o foco está em cima deles, não permitem que se organizem os troços sem lá passarem, sem vistoriarem e sem verificarem que há o mínimo de condições para que a prova se possa desenrolar. Para nós isso é logo uma segurança. Por isso é que as provas de estrada são muito caras, pois o policiamento tem um custo muito significativo. Mas não há como contorná-lo pois sem a segurança não se pode fazer…

Sabendo que os custos relativos à segurança das provas, como o policiamento, são muito caros, acha que conseguirá a utilização de Marshalls, de modo a ser possível ter menos polícias?
É muito difícil baixar os custos de policiamento, pois há policiamento noutros desportos, no futebol no ciclismo e em todas as outras modalidades. É um ssunto muito delicado, e as conversas que tive com a Secretaria de Estado da Administração Interna, ainda que bastante interessantes, do ponto de vista de baixar preços do policiamento não foram conclusivas. Não está na disposição de abdicar dos seus direitos, e por aí é muito difícil.
Eu acho que é capaz de ser mais fácil no futuro. Espero que em 2019 possamos estar em condições de ajudar os clubes a minimizar os custos de segurança. A federação quer criar condições para baixar esses custos.

Quando chegou à FPAK, como a encontrou a nível financeiro? Está mais estável ou ainda há muito trabalho a fazer?
Há algum trabalho a fazer pela frente, apresentámos as contas para 2018 em novembro passado, e o que está previsto é que a dívida termine este ano. Mas a situação sobre o ponto de vista económico e financeiro da federação é estável o que é importante para podermos fazer o que precisamos e libertarmos os meios que são necessários para promover melhor o desporto automóvel.

O número de associados cresceu ou estabilizou desde que tomou posse?
Ainda é cedo, porque os associados que estavam são mais ou menos os mesmos, agora vamos ver se este ano de 2018 vai haver mais praticantes, mais carros a correr, estou convencido que sim.

Garantir visibilidade nacional ao automobilismo português, através duma nova estratégia de comunicação. Como se faz isto?
Queremos fazer parcerias com grupos de media, sobretudo na área digital, que eu acho que nos vão ajudar melhor a sensibilizar outras pessoas que não têm a ver com o nosso meio. Outro parceiro que faz todo o sentido que nos ajude na nossa estratégia de divulgação é o AutoSport. Tenho esperança de conseguir, estamos em negociações com um canal de TV para ter um programa sobre automobilismo semanal com cerca de 30 minutos, estamos à espera de respostas.

Como fica a questão dos direitos de TV este ano no desporto motorizado? Continuam na Movielight? O ano passado já transmitiram algumas provas em live streaming, para além da Taça de Portugal de Karting há planos para mais alguma coisa?
Já reuni com a Movielight, e chegámos a um acordo bom para as partes nos campeonatos em que a FPAK tem responsabilidades, e em relação aos campeonatos que tem promotores, os direitos passam a ser exclusivos dos mesmos e não partilhados como era no passado.
Já no Rallye Serras de Fafe, vai haver streaming na super especial, e o AutoSport também vai poder colocar as imagens em direto, no digital, o que nos vai permitir aumentar a visibilidade. Tenho informação por parte dos promotores que vão apostar no live-streaming em 2018 depois dos excelentes resultados do passado mês de setembro no Circuito de Braga.

Que outras mudanças na FPAK tem levado a cabo?
Nos quadros da FPAK. Entraram dois jovens, há gente que já cá está há muitos anos, a média é de 16/17 anos, entraram dois quadros para duas áreas absolutamente fundamentais na federação. A área dos regulamentos, e a área técnica. Um recém engenheiro com 24 anos, e outro jovem para a área dos regulamentos, que reportam aos seus chefes, mas estamos a reforçar esses dois setores.
Eu gostava que pudesse ligar para cá uma pessoa e que dissesse que tem determinado carro na garagem, sem saber o que pode fazer com esse carro, pudesse ter uma resposta imediata. Temos que ter a parte regulamentar e a parte técnica dotadas de meios que saibam na ponta da língua, entre aspas, aquilo que têm de responder a um licenciado, ou a um potencial licenciado que queira fazer uma pergunta. A FPAK não pode demorar quinze dias a responder. Temos que criar uma espécie de linha verde, em que se ligue, pergunte e possa ter a resposta na hora…

Tem algum sonho particular que gostasse de concretizar na FPAK enquanto for presidente?
Sonho era chegar ao fim do mandato e sentir que os que votaram em nós não fiquem arrependidos de terem votado, e os que não votaram, que se arrependam de não ter votado. Estamos muito empenhados e determinados. Felizmente tenho uma direção muito importante, em cada uma das suas áreas. São pessoas com competências que nos estão a trazer as suas experiências e know how para a federação, cada uma na sua área. Acho que temos condições de fazer um bom mandato. Unir a federação, remarmos no mesmo sentido, ter mais adeptos, mais praticantes, mais licenciados, era esse o grande sonho e o grande objetivo desta legislatura…

Deixe um comentário

1 Comentário em "Entrevista a Ni Amorim, Presidente da FPAK “TEMOS QUE TER MENOS PROVAS, MAS COM MELHOR QUALIDADE”"

peudreot106rallye
Membro

“às Regularidades onde se vê de tudo, e a federação não pode fazer de conta que nada se passa, em provas que consideramos que uma tragédia pode vir a acontecer a qualquer momento.” será que é mesmo assim?

últimas Destaque Homepage
últimas Autosport
AutoSport https://www.autosport.pt/wp-content/themes/maxmag/images/motosport.png