MEMÓRIA: Quando Felice Bonetto apagava velas … numa padaria


Interveniente ativo no automobilismo há mais de cinco décadas, primeiro como piloto e depois como organizador, Fernando Batista tem um ‘espólio’ de memórias que ajudam a contextualizar as idiossincrasias de uma prova de automóveis em tempos tão longínquos. Uma das histórias mais interessantes foi quando o então jovem portuense assistiu à vitória do italiano Felice Bonetto no “1º Circuito Internacional do Porto”, na Boavista, em 1950. Segundo Fernando Batista, “recordo-me que ele andava sempre com o seu cachimbo e trouxe o Alfa Romeo 8C por estrada desde Milão até ao Porto. Quando aqui chegou teve a ajuda do ‘pai’ Ângelo Costa, famoso preparador que tinha uma oficina ali para os lados da Rua Júlio Dinis. Só que as velas daqueles motores precisavam de uma certa temperatura para que de manhã, quando fossem metidas ao motor, funcionassem em pleno e o motor pegasse melhor. Era por isso que o Bonetto levava as velas a uma padaria ali perto e elas ficavam guardadas num forno durante a noite.” No dia seguinte, Bonetto ganhou a prova de Sport mas não sem alguma sorte à mistura pois teve de percorrer os últimos 100 metros sem gasolina!

Outra memória forte foi quando Fernando Batista conheceu Wolfgang von Trips e Juan Manuel Fangio em 1961, aquando da sua passagem pela Alemanha onde trabalhou e frequentou um curso de formação da Mercedes-Benz. “O Fangio já não corria na Fórmula 1 mas tinha o concessionário da Mercedes em Buenos Aires. O von Trips, por outro lado, era monitor do curso e a grande esperança dos alemães para ser campeão da F1. Ele correu na Boavista em 1960 e quando me viu em Estugarda foi-me perguntar se eu não era um daqueles malucos que tinham corrido no Circuito no sábado, à chuva, com aqueles ‘carritos’ de Sport. Eu disse-lhe que sim e também que me lembrava dele a sair de pista no final da Avenida da Boavista e a regressar pela Rua Antunes Guimarães. Era um grande piloto. Um dia, na segunda-feira depois do GP de Monza de 1961, chego à fábrica e estava tudo a chorar. Ele tinha morrido no acidente. Para mim foi como se os ídolos dos automóveis tivessem acabado. Só voltei a correr naquela prova do Targa no Estádio do Lima, em 1967.”