A estrada sobe, e desce depois do Col do Turini. Apenas isso. Sem dramatismos. Uma alcatifa de asfalto cinzento – por vezes com ‘algodão Perlé’ – que serpenteia entre muros de pedra e outros invisíveis de escuridão e frio, aos 1.600 metros de altitude nos Alpes franceses. É o Col de Turini — e quando lá passa o Rali de Monte Carlo, é por vezes onde tudo termina ou se desmorona. Há quem lhe chame também a “La Nuit des Longs Couteaux” (A Noite das Facas Longas) devido aos feixes de luz dos faróis extra que cortam a escuridão como sabes de luz do Star Wars!
Nos primeiros dias de janeiro, poucos conhecem este sítio. É apenas uma estrada de montanha. Mas quando os ralis ali chegam — quase sempre de noite, quase sempre na terceira ou quarta noite de vigília sem dormir — o Col de Turini transforma-se numa arena onde homens e máquinas enfrentam o gelo e o tédio absoluto da fadiga.
A história começou há mais de 60 anos. Em 1962, alguém decidiu que a ligação entre La Bollène e Peïra-Cava ou Sospel já não era apenas um trajeto. Era um teste de velocidade. Os pilotos acumulavam horas ao volante, os olhos colados na estrada, o corpo todo a gritar por descanso. E aqui, neste ‘Col’ de montanha, tudo ficava ainda mais visceral. Mais tarde, em 1965, voltaram a passar três vezes, na mesma noite, pelo Turini. Três vezes.
Os espetadores enlouqueciam. Viam a caravana passar, desaparecer na escuridão e voltar, como um fantasma que reaparecia obsessivamente. Tanto paralelo que se pode fazer com as noites de Arganil na Serra do Açor…
Com o tempo, chegaram os incidentes. Os que fizeram do Col de Turini uma lenda manchada drama.
1968: o ano em que a neve ficou arma
Gérard Larrousse terá passado pela curva rápido demais ou lento demais, importa pouco quando o carro se espatifa contra o gelo inesperado. Os fãs estavam ali para combater o tédio. Porque o Alpine era rápido demais e eles queriam… o quê? Ninguém sabe ao certo. Mas havia neve naquela curva que deveria estar seca. Alguém a colocou lá. Larrousse cruzou-o e bateu! Terá sido talvez a primeira vez que os espectadores foram parte interveniente do Rali de Monte Carlo. Larousse saiu depois da sua máquina destruída, o rosto ainda com piscas de adrenalina, e viu os adeptos a rirem-se. O carro era um ferro velho. A raiva foi instantânea. Um soco. Depois outro. Os fãs também socaram. Um incidente que ninguém pôde explicar porque ninguém quis admitir que, às vezes, os fãs sabotam os heróis que supostamente admiram. Antigamente, o Turini era uma “zona cinzenta” onde o público sentia que podia moldar o resultado, quase como deuses do Olimpo cobertos de neve.
1977: o motim quase silencioso de Markku Alén
O Fiat 131 de Markku Alén parou 200 metros depois do início. Apenas isso. Não pegava. Os adeptos italianos — porque havia sempre adeptos italianos aqui – começaram a empurrar. Queriam salvar o carro. Queriam que o Fiat voltasse à luta. Os comissários franceses gritavam “não, não, não”. Os regulamentos, os protocolos. A Gendarmerie aproximava-se ameaçadora.
O carro estava entre dois mundos: um querendo salvá-lo, outro querendo deixá-lo morrer. Markku Alen observava, impotente. E depois – misteriosamente – o motor pegou. Ninguém sabe se foi dos empurrões ou se foi puro acaso. Mas pegou. O Fiat saiu disparado enquanto os comissários ainda berravam e os italianos se abraçavam como se tivessem ganho a guerra.
1981: François Delecour e o choro que ninguém esqueceu
Mas havia um incidente que queimava todas as histórias anteriores. Uma história que começava com vitória e terminava em lágrimas verdadeiras, quentes, desesperadas.
François Delecour estava perto de vencer Rali de Monte Carlo em 1991. Ia. Passado simples, porque o futuro desabou aqui, neste Col.
Ele descia o Turini com a liderança nos ombros no seu Ford Sierra 4X4 – tantos quilómetros, tantas horas, tanta concentração. O carro ‘comeu’ a curva e Delecour tocou num muro. Um toque. Mas neste rali, um toque pode ser tudo. Danificou a suspensão. Perdeu tempo e perdeu o rali.
Saiu do carro e chorou. Não disfarçadamente. Não com lágrimas discretas. Chorou de verdade, aquele choro de homem que tem os ombros tensos, a garganta apertada, o ar preso nos pulmões, a certeza de que tudo acabara. Ao fim ao cabo seria a primeira vitória no ‘seu’ Rali de Monte Carlo. Ficou para depois.
Os espetadores viam-no. Alguns pareciam não saber o que fazer. Outros aproximavam-se, ofereciam café. Mas Delecour só queria ir carpir mágoas para outro lado. O Turini tinha feito o seu trabalho: tinha destruído um sonho com elegância.
A estrada continua a subir… e descer
O traçado em si é simples. Pouco mais de uma dúzia de ganchos (épingles ou hairpins, à vontade do freguês). Nada de extremo. A estrada é muito inclinada, sinuosa, mas não é um deserto de impossibilidades técnicas. O que a torna letal é o contexto: a hora, a escuridão, o frio, o gelo negro invisível, a fadiga acumulada. Estes pilotos já não dormem bem há uns dias. E ali, numa curva qualquer, vidas mudam. Sonhos adiam-se.
Depois vieram os anos 90. A segurança moderna. O receio das autoridades de que o circo degenerasse novamente. Os rails de proteção emergiram como ferros de uma prisão. Centenas de polícias — “Fort Knox”, como alguém descreveu — começaram a vigiar cada fã, cada movimento, cada queda de neve suspeita.
A festa morreu lentamente. A lenda transformou-se em multidão ordenada. Acabaram-se os desafios Itália/França em bolas de neve nas duas bancadas opostas do Col du Turini, que carregava a estrada de ‘verglas’.
Os fãs continuavam lá, mas agora com “pulseiras de identificação”. O “murmúrio selvagem” dos Alpes virou silêncio protocolar.
Turini hoje
O Col de Turini continua a existir nos mapas. Os Rally1 continuam a lá passar. Mas há algo que morreu, não no asfalto, mas na alma daquilo tudo. O público a ajudar os carros quando os pregos não martelavam o gelo, ou porque os pneus slicks eram precisos para os restantes 30 Km e não para aquelas centenas de metros completamente geladas. A sensação de anarquia controlada, de circo onde tudo era possível, de mágica onde uma pedra e um choro podiam reescrever histórias.
Agora é apenas um sítio onde o rali passa. Bonito, sim. Icónico, sim. Mas é difícil fazer a festa quando há Gendarmerie numa escala de um para dois adeptos. Com uma prancheta e uma multa preparada.
A estrada continua a subir aos 1.600 metros. Mas a verdadeira altitude, a que faz levitar o coração e derreter a calma – essa fugiu em algum momento na mudança do século. Talvez esteja ainda lá em cima, nalgum pico invisível, esperando pela próxima loucura.
Ou talvez tenha simplesmente desaparecido quando o Turini deixou de ser selvagem e se tornou apenas seguro.