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Ott Tanak: Do Titanak ao TreeTanak

 

Já lá vão dois anos que no Rali do México, a M-Sport teve de ‘salvar’ um Ford Fiesta WRC em tempo recorde. Ott Tanak e o seu navegador, Raigo Molder foram vitímas de um invulgar acidente que, pura e simplesmente, ‘afogou’ o Ford Fiesta RS WRC da M-Sport. Escapando com vida e sem ferimentos (afinal, o mais importante) piloto e navegador conseguiram prosseguir, mais tarde em prova, com a ‘estória’ a tornar-se ‘história’ também porque os técnicos da equipa inglesa conseguiram reconstruir o ‘Fiestanic” a tempo de prosseguir em prova, em menos de três horas. E é essa odisseia que lhe vamos contar, sem deixar de lhe dizer que, desta vez nos reconhecimentos, o estónio também não se deu bem com os ares do México, ao bater numa árvore…

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Há dois anos, Ott Tanak terminou na 22ª e penúltima posição o Rali do México, algo que, não impediu que fosse um dos heróis da prova mexicana e, seguramente, um dos que obteve melhor índice de retorno no final do rali. O seu ‘macabro’ acidente para isso contribui mas a forma como a equipa M-Sport conseguiu novamente ‘dar vida’ ao seu Fiesta foi decisiva para potenciar e propagação a comunicação do caso, conseguindo a M-Sport reverter o infortúnio a seu favor e explorar, de forma exemplar, a seu favor, a situação em termos de comunicação. Uma boa prova disso foi a descrição cronológica de todos os acontecimentos – antes, durante e depois do acidente e reconstrução do Fiesta – que a equipa liderada por Malcolm Wilson fez questão de divulgar e que ajudam a perceber todos os momentos marcantes deste episódio que Tanak, Molder e toda a equipa da M-Sport nunca mais esquecerão e que ficará gravada na memória do WRC…
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Cronologia dos acontecimentos

6ª Feira (6 de março)

09h24 – O Ford Fiesta RS WRC saiu de estrada ao km 2,6 da terceira classificativa e caiu num lago a uma profundidade de cinco metros, com Ott Tanak e Riago Molder a conseguirem sair a tempo do carro antes desde submergir totalmente.

P-20150306-00484_HiRes-JPEG-24bit-RGB09h30 – Quando o carro seguinte, o Hyundai i20 WRC de Hayden Paddon passou pelo local (sem ver a equipa da M-Sport), tornou-se evidente que algo grave se tinha passado, com a M-Sport a contactar de imediato a organização para tentar o que se tinha passado e onde estava o carro que deixou de enviar sinal de GPS.

09h38 – O troço foi parado e o veículo de intervenção rápida foi enviado, confirmando que tanto piloto como co-piloto estavam bem e sem ferimentos graves.

10h17 – Piloto e navegador foram levados para Parque de Assistência de helicóptero. De seguida foram reconduzidos ao hotel depois de fazer um check up completo pela equipa de médicos. Nessa altura, Raigo Molder também iniciou o longo processo de secagem do caderno de notas, página por página, que, à última, tinha também conseguido resgatar de dentro do Fiesta.

12h09 – Tanak e Molder regressaram à Zona de Assistência para completar as entrevistas aos media e a equipa enviou mecânicos ao local onde o Fiesta estava totalmente submerso para saber se o Fiesta seria recuperável.

P-20150307-00106_HiRes-JPEG-24bit-RGB16h30 – O troço foi fechado e às equipas que iriam proceder ao resgaste aquático do carro foram dadas ordens para se deslocarem ao local.
16h45 – Os organizadores enviaram os primeiros mergulhadores para localizarem o carro no lago que não era visível do exterior.

17h45 – O Fiesta emergiu das profundezas e foi içado até terra firme.

18h00 – O carro foi carregado num camião e o telemóvel de Raigo Molder recuperado… ainda a funcionar!

20h15 – O Fiesta chegou ao Parque de Assistência e, de imediato, a equipa iniciou a avaliação dos danos.

21h30 – O trabalho de recuperação do Fiesta começou com o teto regulamentar de três horas. Às 00h30 de sábado, o carro deveria entrar em Parque Fechado para que pudesse, no dia seguinte, arrancar em sistema de Rally 2.

P-20150307-00137_HiRes-JPEG-24bit-RGB21h55 – 25 Minutos depois de iniciarem a assistência de três horas, os técnicos tinham ‘despido’ o Fiesta até à carroçaria, retirando o pára-brisas, as asas, os pára-choques, a porta do condutor, todo o sistema de suspensões dianteiro e traseiro, a caixa de velocidades, o turbo e a todo o sistema de refrigeração.

22h00 – O trabalho foi temporariamente interrompido já que o regulamento só permite um mecânico trabalhe no sistema de combustível. Após a inspeção do depósito de combustível foi decidida a sua substituição.

22h03 – Com o regresso ao trabalho de todos mecânicos da equipa, o depósito foi retirado, bem como todo o interior: bancos, cablagens, sistema de rádio (de comunicação) e tabliêr.

22h15 – Os mecânicos começaram a drenar a água de dentro do cockpit.

134235_Service03MEX15cm40522h25 – O especialista da M-Sport em motores procedeu a uma correção no bloco do motor danificado e drenou a água em excesso que ainda estava no motor.

22h30 – A duas horas do tempo limite se esgotar, o Fiesta começou a ser novamente montado. Todas as partes que tiram sido retiradas foram substituídas por novas. Exceto as bacquets, os cintos, o capot e kit de ferramentas.

23h00 – Com uma hora ainda disponível, foi ligado o motor de arranque para ver a pressão de óleo.

00h05 – A 25 minutos do limite de tempo, o motor voltou a ‘gritar’.

00h10 – Nos últimos 20 minutos, a equipa colocou o capot, testou a transmissão e até deu ao carro um último polimento. O número Fiesta RS WRC nº 6 deixou a Assistência dentro do tempo regulamentar. Tanak e Molder colocaram o carro no Parque Fechado. Todo o trabalho necessário para recuperar o carro foi feito sem exceder o limite das três horas.

Sábado, 7 de março

133979_Tanak03MEX15sv08108h30 – Tanak e Molder dirigiram-se ao Parque Fechado e descobriram que o carro não pegava em resultado de ter passado a noite ao relento.

08h31 – Pensando rapidamente a equipa empurrou o carro para fora da zona, onde um mecânico já esperava com o carro de reconhecimentos para rebocar o carro para a Assistência.

08h32 – O carro foi levado e entrou na zona de Assistência da M-Sport sob forte aplauso das outras equipas de construtores.

08h33 – Os técnicos fizeram ajustes na geometria do Fiesta, mudando as velas, as válvulas eletrónicas (duas vezes) e conseguiram recolocar novamente o Fiesta a trabalhar.

08h49 – Tanak saiu da Zona de Assistência em direção à zona de reabastecimento. Infelizmente, o carro voltou a deixar de funcionar depois dessa zona.

09h25 – Tanak e Molder conseguiram pôr o Fiesta novamente em marcha, mas o tempo para partirem para o primeiro troço já se tinham esgotado.

10h28 – Tanak e Molder levaram o carro de volta à Assistência, onde ela ficou imobilizada a apanhar os banhos de Sol mexicanos para secar completamente para que pudesse regressar em Rally 2 no dia seguinte.

15h10 – O trabalho recomeçou. Os técnicos mudaram todos os sensores de pressão de gasolina e toda a cablagem do motor. Também mudaram o óleo e fizeram mais afinações na cartografia.

16h25 – O motor foi voltou a pegar e analisado pelo engenheiro no computador. Depois disso, foi decidido, por precaução, mudar a ECU.

17h12 – Depois de várias experiências de ligar e desligar o motor para ver senão existiam mais problemas, o Fiesta nº 6 foi conduzido até ao Parque Fechado, pronto para ‘lutar’ para o último dia do rali.

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Peixe dentro do carro e bacquets na cozinha!

Como é fácil imaginar, a reconstrução de Ford Fiesta RS WRC que Ott Tanak não conseguiu evitar que fosse parar ao fundo de um lago foi tudo menos fácil, sobretudo pelo facto do tempo de reparação ser escasso para todas as intervenções necessárias. Logo que o carro foi emergido do lago foi feito um primeiro diagnóstico de que peças o Fiesta poderia precisar. A coordenar parte desse trabalho esteve Bernardo Fernandes, o engenheiro de chassis do carro de Tanak que ficou responsável pela coordenação de peças que iriam ser substituidas no carro da equipa inglesa. O português explicou que “ainda antes do carro chegar à Assistência houve um trabalho minimamente profundo para verificarmos tudo o que o carro precisa em termos de peças novas para que quando o carro chegasse à Assistência todas as peças novas que o carro iria levar estivessem já preparadas para ser montadas. Houve um plano prévio de trabalho. O Malcolm Wilson falou comigo e com o Miguel Cunha (chefe de mecânicos da equipa) e, juntos planeamos como iriamos abordar a ‘questão’, definindo prioridades, assinalando as peças que tinham que ser removidas em primeiro lugar, como a transmissão e o motor pois, por exemplo, se o motor estivesse irremediavelmente danificado nem valia a pena continuarmos ter todo o trabalho”. Conforme explicou também o engenheiro português, “também foi importante planear a extração e substituição do depósito de combustível porque quando se está a trabalhar neste peça, não podem os mecânicos estarem por perto a trabalhar noutras coisas, por questões de segurança já que a peça tem que estar envolvida num perímetro de segurança. Portanto, vimos o que poderíamos extrair do carro para ser trabalhado no exterior por forma a otimizarmos o tempo que era pouco”.

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Depois, num trabalho que envolveu a substituição de inúmeras elementos mecânicos e eletrónicos, muitas peças acabaram substituídas apenas por mera precaução, enquanto outras, como por exemplo, as cablagens, nem sequer precisaram de ser renovadas uma vez que “já são feitas para terem um alto grau de resistência a praticamente tudo pelo que se apresentavam sem qualquer vestígios de água no interior”, explicou o mesmo responsável português.

Tratou-se, todavia, de um trabalho que chegou a envolver praticamente toda a equipa da M-Sport pois até o chefe da cozinha chegou a ter as bacquets de piloto e co-piloto na cozinha da motorhome da M-Sport para as ajudar a secar mais depressa! De resto, em todo o processo de reconstrução do Fiesta com o chassis nº 29 contabilizaram-se cerca de 40 elementos já que para além dos oito mecânicos da equipa, estiveram envolvidos na operação de salvamento do carro no Parque de Assistência mais 10 pessoas de diversos departamentos da M-Sport, como os responsáveis pelo motor, suspensões, etc), a que se juntaram ainda muitos elementos das equipas que tinham carros da M-Sport para ajudarem, numa ou noutra tarefa.

No cômputo geral, Bernardo Fernandes revelou que “o maior desafio foi o facto de sermos obrigados a tratar e rever muita coisa em tão pouco tempo que tínhamos ou seja, fazer tudo em três horas. Mas no fim, compensou o esforço pois antes das três horas o carro estava a trabalhar e foi colocado no Parque Fechado para reiniciar o rali no dia seguinte”.

Apesar de tudo, o carro que fazia no México a sua 30ª participação em provas do WRC, acabou por quase nem arrancar para a etapa seguinte depois de ser forçado a desistir quando trabalhava intermitentemente devido “à humidade alojada na zona do motor durante a noite e ao não funcionamento de dois sensores da eletrónica que não ajudaram o trabalho das velas e bobines”, contou ainda o o engenheiro português. Para o último dia, tudo foi então seco e consertado e o Fiesta voltou ao pó das classificativas mexicanas com todo o seu fulgor.

Para a história ficou então um episódio inesquecível na vida de toda a estrutura da M-Sport, do qual até um peixe, acabou por fazer parte ou não tivesse sido encontrado dentro do habitáculo do Fiesta (quem sabe a tentar telefonar no telemóvel de Raigo Molder)!


O Titanak de Ott Tanak


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