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Walter Röhrl, o septuagenário mais rápido da história dos ralis



Se há nomes que dispensam apresentações, Walter Röhrl é um deles. O tempo passa, e o simpático alemão faz hoje 70 anos! Parece que foi ontem que o vimos a ‘esgalhar’ pelas serras de Portugal a dar grandes espetáculos. Duas vezes Campeão do Mundo e vencedor do mítico Rali de Monte Carlo quatro vezes, sempre em carros diferentes, o piloto alemão continua ligado aos automóveis, pois mesmo tendo trocado o capacete pelas palavras e gestos sábios, tem ainda muito para ensinar…

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Da paróquia para os ralis

Walter Rohrl viu as portas do sucesso no mundo dos ralis abertas relativamente tarde, se comparado com o que hoje seria normal. Percursor de uma geração de ouro como é ainda a que agrupa Sébastien Loeb, Marcus Gronholm, Tommi Makinen, Juha Kankkunen, Carlos Sainz ou Colin McRae, Walter Rohrl sempre associou o seu estilo frio nas palavras à frieza na condução, que lhe permitiu resultados muito dignificantes e ainda hoje ser visto como o melhor piloto alemão de sempre de ralis.

Na verdade, o seu primeiro contacto com os ralis ocorreu em 1968, de forma dissimulada, uma vez que necessitou esconder a sua paixão pela velocidade dos pais depois de, pouco tempo antes, o seu irmão ter morrido num acidente de automóvel. Isso não impediu, no entanto, que antes de se tornar piloto profissional, o alemão ajudasse o padre da paróquia para onde trabalhou durante oito anos a chegar sempre a tempo de celebrar a missa ou que os seus alunos de ski (foi instrutor) percebessem que podiam havia outra maneira de se ser rápido na neve!

Felizmente para a história dos ralis, o alemão tinha mais jeito para guiar do que para ajudar o padre a vestir a batina ou para dominar os skis, e por isso bastaram cinco ralis para que fosse contratado para defender as cores da Ford Alemanha no campeonato alemão de ralis de 1971.

Duas vitórias e três pódios, num Ford Capri de Grupo 1 e 2, atiraram-no quase de imediato para voos mais altos já que não passou despercebido à Opel. É a este construtor alemão que Rohrl deve o seu primeiro título internacional, o Campeonato Europeu de 1974, um ano antes de estrear no Mundial de Ralis no Rali de Acrópole. A um limitado programa com a Opel, sucedeu uma bem sucedida carreira na equipa oficial da Fiat, iniciada em 1977.

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Ao volante do 131 Abarth, só teve que esperar três anos para ser Campeão do Mundo, antes de repetir o título em 1982 já ao volante de um Opel Ascona 400, no regresso à casa alemã, num ano particularmente difícil não só pelos atritos dentro da equipa, mas também porque o rival Audi Quattro já se mostrava o carro mais competitivo de todo o plantel e as rivalidades com a “estrela” Michele Mouton subiram de tom. Em 1983, o piloto de Regensburg mudou-se para a Lancia e conseguiu resultados fantásticos com o Lancia Rally 037 de apenas duas rodas motrizes face aos Audi Quattro de tracção integral, o que fez de imediato com que a marca alemã o quisesse a defender as suas cores. Isso aconteceu no ano seguinte, mas apesar da sua incrível rapidez e sangue-frio, Rohrl apenas averbou dois triunfos, um no Monte Carlo de 1984 e o Sanremo de 85, aí já ao volante do, super Sport Quattro S2.

A sua carreira nos ralis terminou dois anos depois com a entrada em cena dos Grupo A, onde ainda guiou o Audi 200 Quattro sem grande sucesso, antes de emigrar para os EUA e experimentar a velocidade e, mais tarde, o DTM.

Mas mesmo com o “bichinho” da competição a acalmar o espírito, o da condução continua, ainda hoje, a não dar provas de querer abrandar ou não tivesse “Montemeister” (nome porque ainda hoje é conhecido) se dedicado de corpo e alma ao desenvolvimento dos modelos de produção corrente da Porsche e ter chegado a estabelecer alguns interessantes recordes com este carros na mítica pista de Nurburgring. Se homens há que nasceram para guiar, Walter Rohrl, o primeiro piloto a sagrar-se duas vezes Campeão do Mundo de Ralis, foi e ainda é um deles…

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Outros tempos

Do alto do seu mais de 1,90 cm de altura, o olhar de Walter Rohrl transporta serenidade. A mesma serenidade que apaziguou a fúria do Audi Sport Quattro que, na década de oitenta, guiou de forma exímia e que, ainda hoje, é visto como o mais potente carro de ralis do todos os tempos. Passados mais de 30 anos, Rohrl ainda é piloto de ralis mais conhecido na Alemanha e entusiastas de todo o mundo reconhecem-lhe o devido mérito como se o tempo não tivesse por ele passado. Numa conversa aberta e franca, Rohrl começa por comparar a realidade do seu tempo com a da futura e promissora geração de pilotos. Numa ótica global, o ex-piloto oficial da Lancia, Opel e Audi relembra que «tudo mudou. As características dos ralis alteraram-se e muitas das coisas que dantes podíamos fazer agora não podemos. As relações públicas são diferentes, tal como o próprio espírito dos ralis. Quando eu corria, os ralis eram um teste de fiabilidade e resistência a carros e pilotos. Agora os ralis estão muito mais perto de uma prova de pista onde tudo se decide ao milímetro. Mas o mais impressionante é que, por exemplo, nas entrevistas que fiz há uns anos como júri da Pirelli Star Driver a jovens pilotos percebi claramente que cinco ou seis deles tinham uma mente já muito bem trabalhada que é o que hoje é necessário. No meu tempo, se eu tivesse entrado num concurso como este para caçar um talento, com a idade destes miúdos, eu não estaria minimamente apto para triunfar e chegar onde cheguei. Eu não falava inglês como eles quando comecei a fazer ralis e, no meu ponto de vista, eu estaria ansioso para saber qual de nós seria o melhor piloto e o mais rápido e não quem falava melhor inglês e era melhor relações públicas! No entanto, reconheço que hoje tudo isto faz parte do “jogo” porque tudo mudou e as necessidades dos ralis são, efetivamente, diferentes do que eram há três décadas».

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Falta barulho aos carros!

Mas se, de facto, os ralis receberam em pouco mais de 20 anos mutações de genética capazes de envergonhar um camaleão, os carros assumiram também uma parte importante no processo de transformação nas provas de estrada. Para Rohrl, «os carros de hoje são realmente rápidos, mas menos espetaculares para os pilotos e espetadores. Quando vemos espetadores ao longo de uma especial percebe-se que falam da falta de barulho dos atuais WRC. O barulho faz falta. Para além disso, os carros de hoje são altamente sofisticados e isso significa que têm demasiada eficiência na estrada, pouca espetacularidade e, por consequência, facilmente “castram” a diversão dos espetadores. Não tenho dúvidas que com os actuais World Rally Car praticamente qualquer piloto pode ser rápido!” (NOTA: Esta conversa teve lugar ainda com a versão anterior dos WRC).

Mas para quem venceu 14 ralis, subiu ao pódio por 31 vezes (mais de 40 por cento dos ralis em que participou) e ganhou 423 especiais de classificação não há dúvida que o fator humano continua a ser uma parte importante (senão a mais importante) na equação da vitória. Prova disso está na forma como o esguio alemão responde à pergunta: que qualidades deve, afinal, ter um bom piloto hoje em dia para se revelar? Rohrl considera que «um bom piloto nos ralis e atuais deve concentrar múltiplas características. Tem necessariamente que ser bom em todo o tipo de pisos ou em pisos tão diferentes como terra, neve ou asfalto. Hoje é também preciso ser suficientemente esperto e astuto para saber se, sob determinadas condições, é preciso andar a fundo e se isso é o melhor a fazer. Hoje, ser campeão não depende de ganhar ou não todos os ralis do campeonato, mas antes de ser suficientemente seguro na condução. Para chegar ao topo é preciso combinar, na proporção certa, a velocidade pura e a confiança». Ora e quando quem o diz é Walter Rohrl, uma das últimas verdadeiras lendas vivas, do Mundial de Ralis então acreditem porque é verdade…

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Embaixador da Porsche

Walter Rohrl é embaixador da Porsche há mais de uma década e continua a mostrar os seus, ainda muito bem apurados, dotes de pilotagem, e na sua última passagem por Portugal, andou no traçado do circuito do Estoril a fazer piões e o público luso não lhe regateou aplausos o que Walter Rohrl ‘devolveu’ em simpatia e disponibilidade para os adeptos: “São sempre muito simpáticos para mim em Portugal, aqui sinto sempre que sou bem vindo. Porquê? Não sei bem, talvez pelo que aconteceu em Arganil, que revisitei recentemente em filmagens”, disse Rohrl que recordou um novo detalhe da bem conhecida história quando deu 4m40s a Markku Alen: “Foi um dia incrível. Nos ralis, nos lugares da frente se um piloto em luta direta dava trinta segundos a outro, imaginem quase cinco minutos. O mais curioso é que na segunda passagem, quando já tinha uma grande vantagem na frente e estava a gerir a prova, o Markku apanhou-me passados 20 quilómetros, mas assim que apareceu a zona de nevoeiro, até ao fim, voltei a ganhar-lhe dois minutos. No fim veio-me dizer que que assim não podia ser, não era capaz de lutar comigo. Foram tempos inesquecíveis”, recordou. Esta conversa teve lugar com a Serra de Sintra como pano de fundo, um local onde tem grandes recordações: “Estive em Sintra em competição pela última vez em 1986, mas parece que foi ontem, já que guardo imensas memórias desses dias. Dos adeptos extremamente entusiásticos em Portugal, e das incrível combinação de troços. Eram especiais fantásticas, subidas, descidas, estreito, largo, rápido, lento, os troços de Sintra tinham tudo, são das melhores especiais que existem para fazer ralis.”, recordou com um brilho nos olhos. Hoje em dia, o seu trabalho de embaixador da Porsche é diferente, mas dá-lhe ainda muito gozo: “É muito diferente do que fazia no passado mas há uma coisa que é muito importante para mim. É que continuo a ter excelentes carros para guiar.”, refere Rohrl que dá o ‘tweaking’ final aos protótipos da Porsche, antes de passarem a produção, disse Walter Rohrl, que recordou também uma história antiga da sua passagem pela… Mercedes, marca com que assinou em 1981, antes do programa ter sido banido, deixando pelo caminho os responsáveis da Audi muito zangados: “Primeiro, na Audi ficaram fulos comigo, pois num dia estava a testar com eles o Audi Quattro e no dia seguinte assinei com a Mercedes. O contrato previa um programa de cinco anos, primeiro com o 500 SL, para depois desenvolver um carro de motor central para ’83. As primeiras dúvidas surgiram quando os responsáveis da Mercedes, logo depois de assinar, me perguntaram se havia o risco de não ganharmos o Monte Carlo. “Há, sim”, respondi. Depois, ainda em dezembro de ’80, estava a testar na neve num troço fechado. Houve um camião que foi deixado passar, pois ia fazer 30 metros e sair logo da estrada. Mas em vez disso, continuou… Apareceu-me à frente e bati-lhe de lado a cerca de 190 km/h! Magoei-me. Para a Mercedes, acabaram-se as dúvidas, pois logo nesse dia decidiu cancelar o programa, temendo a publicidade negativa.”

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A história do chimpanzé e de Michéle Mouton…

Para muitos o nome de Walter Rohrl fica também ligado a outro incontornável do Mundial de Ralis, o de Michele Mouton. A rivalidade entre o alemão e a única mulher que até hoje venceu ralis do Campeonato do Mundo foi sempre indisfarçável tendo atingido o ponto alto em 1982, ano que Rohrl foi pela segunda vez Campeão do Mundo à custa do abandono da piloto da Audi no Rali Costa do Marfim. Na altura, recorde-se que o alemão, desiludido com as potencialidades do Ascona 400 quando comparadas com as do Audi Quattro guiado por Mouton, deixou escapar que até um chimpanzé podia ser Campeão com um carro de quatro rodas motrizes! Evidentemente, o comentário fez a delícia dos jornalistas que rapidamente trataram de tirar as conclusões que mais lhes interessavam… Contudo, passados 35 anos, o piloto, desmistifica essa intempestuosa relação de rivalidade: «gostava de dizer, duma vez por todas, que não tenho qualquer problema com a Michele. Sempre fomos bons amigos. Trabalhei com ela na Fiat, ajudei a Michelle na Audi. E se a ideia que as pessoas têm é que não nos damos bem é porque houve, de facto, uma série de mal entendidos no Mundial de 1982. Mas, na verdade, até foi bastante agradável voltar a encontrá-la».

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Principais resultados

 

Campeão da Europa 1974 (Opel Ascona)

Campeão do Mundo 1980 (Fiat 131 Abarth)

Campeão do Mundo 1982 (Opel Ascona 400)

Campeão de África 1982 (Opel Ascona 400)

14 Vitórias (Mundial de Ralis)

10 Segundos lugares (Mundial de Ralis)

7 Terceiros lugares (Mundial de Ralis)

75 Participações (Mundial de Ralis)

423 Vitórias em classificativas (Mundial de Ralis)

33 Desistências (Mundial de Ralis) (44 % dos ralis em participou)

494 Pontos (Mundial de Ralis)

 

FOTOS: AUDI, PORSCHE E ARQUIVO AUTOSPORT


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